domingo, 16 de julho de 2017

O Gremismo e a Superstição

Eu não me lembro de ter nascido, muito menos nascido tendo um time de futebol. A lembrança mais antiga que tenho, revirando meu enfileirado arquivo memorial, deve ser o dia em que fizeram o pré-natal do meu primo. Em segundo lugar, provavelmente está o dia da final da Copa do Mundo de 2002, copa tal que, diga-se de passagem, Papa Scolari ganhou sozinho. Este deve ter sido o primeiro e último dia em que me vesti totalmente de verde e amarelo. Peculiarmente -sem propósito meu-, uma das minhas primeiras recordações envolveu futebol, talvez sendo um presságio do que estaria por vir: devoção ao esporte. Contudo, lembre-se: ser devoto não significa ter jeito para a coisa, meu negócio sempre foi mais a teoretika. A práxis a gente deixava para aqueles que desde os três já faziam dez embaixadinhas.

Ironicamente, mesmo o futebol estando tão antigamente conectado a mim, eu só fui despertar para o esporte alguns anos depois, em meados de 2006 (ano amargo), apenas porque foi esta a época que despertou meu clubismo. Até aquele ano, eu dizia que era Grêmio apenas porque sabia que meu pai e irmão também eram, mas tanto fazia, não era importante se o Grêmio seria rebaixado ou não, importante mesmo era não ser eliminado na simulação que fazíamos de Big Brother Brasil entre as crianças de meu condomínio. E, cá entre nós, melhor não ter acompanhado mesmo, aqueles foram anos tão horripilantes para gremistas que nem Stephen King conseguiria fazer melhor (ou pior). A única coisa que me marcou do Grêmio, nestes anos de ‘’tanto fez, tanto faz’’, foi uma palavra: Tavarelli. Não tem como lembrar desse nome sem ter raiva ou desgosto, ou tristeza, ou choro, ou tudo misturado. Tavarelli era a personificação perfeita do gol, do adversário.  Se o chute era no alto –disso também me lembro-, podia esquecer: era gol no Grêmio.

Mas até 2006 as coisas passaram rapidamente e perdi a oportunidade, diga-se de passagem, de virar a casaca, mesmo sem ter realmente a vestido, e me tornar colorado. Meu tio, vermelho doente, até hoje tenta entender onde errou, o que faltou para fazer minha conversão, já intromissão alvirrubra esteve arquitetada para acontecer no seio da nossa casa tricolor. Mas não aconteceu. E não foi por falta de tentativa: todo domingo o interfone tocava:

- Dani, vem aqui em casa daqui a pouco assistir o jogo do Inter – convidava meu tio, tramando o bote.

Talvez, durante algum tempo, ter virado colorado naquela época não teria sido mal negócio, já pensei comigo. Afinal, não é em toda vida que se vê seu time perder para um time chamado Mazembe, o que é algo digno de honraria. Porém, meu caminho foi trilhado perseguindo o time do Tavarelli, o time de Rudneis, Cocitos e, pasmem, Baloys. Vai entender.

Este time que me despertou ao futebol também me despertou para outro fator que anda junto comigo quando assisto a um jogo: superstição.  As estatísticas mostram que nos últimos 10 ou 15 anos é impossível ser gremista sem ser supersticioso, não há o que contrariar. Talvez isto traga consigo a assertiva consagradora: os times têm sido tão ruins que só com forças ocultas e superstições para dar tentar dar um jeito. Pode até ser, mas às vezes é bom ser supersticioso, não é preciso nem acreditar, só agir por hábito e deixar a responsabilidade para o Universo. Minha superstição a respeito do Grêmio deve ter começado em algum período em que o time capengava para conquistar pontos fáceis, e, nos jogos importantes, não tinha como não mandar uma sorte supersticiosa, até porque sabíamos que nossos atletas não dariam conta:

- Daniel, o que você tá fazendo com esse casaco? Tá fazendo trinta graus!
- Pára, cara, já te disse que foi pelo casaco que o Grêmio fez o 1x0 e a gente precisa ganhar essa. Se eu tirar, com certeza, vai dar merda.

Aquele casaco deu certo por dois jogos. No segundo (uma derrota), o aposentei, não era bom o suficiente. Disputa de pênaltis com participação do Grêmio a gente já sabia que a chance de derrota sempre era estimada em torno de 70%, tem gente que presenciou mais estrelas-cadentes que vitórias do Grêmio em pênaltis. Sendo assim, a reza tinha que ser da braba: promessas de andar até o interior; dedos cruzados, e seja lá mais o que na hora parecesse dar sorte. Às vezes dava certo, mas na maioria das vezes não tinha como combater: alguns batedores faziam aumentar as probabilidades para 90%.

Talvez lhe pareça, amigo leitor, que eu já fui um supersticioso demais exagerado, mas acredite: se tratando do Grêmio, tinha gente muito pior. No dia do segundo jogo da final da Copa do Brasil do ano passado eu conheci o que realmente era fazer de tudo para tentar dar sorte ao Grêmio. Eram 15 anos sem títulos importantes e parecia que aquele dia seria o dia da quebra da maldição, já que o Grêmio havia ganhado o primeiro jogo fora de casa. Mas, se tratando de Grêmio, e levando em conta todo este sofrimento ao longo destes anos, não se podia dar bobeira. Um amigo nosso, também gremista, nos revelou naquele dia:

- Cara, nessa semana da final eu fiz todos os tipos de mandingas pra dar sorte ao Grêmio.

E prosseguiu:

- Hoje tô usando minha camisa e boné da sorte do Grêmio. Semana passada, indo ao trabalho, ultrapassei um carro que tinha uma placa que começava com ‘’BMG’’, que é patrocinador do Galo. ‘’Aqui não’’, eu disse. Depois, eu vi outro carro, noutro dia, com o patrocínio da Havan (que tá patrocinando o Grêmio nessa final) e mandei um salve ‘’Aê Havan!’’. Segui andando perto desse carro durante todo o trajeto, pra garantir. Acho que talvez tenha sido um sinal de sorte ao Grêmio.

Acredito que naquela final cada gremista mandou um pouquinho de sorte com as diversas ferramentas que conseguiu acumular. Deu certo e a urucubaca dos 15 anos acabou, mas ainda não se pode ter certeza quanto à maldição. Acabando ela ou não, o certo é que as mandingas e superstições irão continuar por algum tempo, sabe, só para garantir. Quem aprendeu a torcer escorado nas maracutaias do Universo precisa de um tempo para se readaptar, questão de logística, claro. Enquanto isso, a camisa da sorte continua repousante no armário, como uma fiel soldada acumulando poder, e apenas esperando o dia em que será, novamente, convocada. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Padrões de Beleza

Trocando de canais, numa manhã destas, me deparei com um par de jornalistas discutindo um assunto intrigante: o número áureo do rosto do Rodrigo Hilbert. A discussão, absolutamente instigante, me tencionou a pensar a respeito de padrões de beleza (e como estes são vendidos para nós). Desde a mais tenra idade, aparentemente, a maneira com que vemos a beleza alheia nos é moldada, e, metaforicamente, implantada. Ademais, se assim não fosse, porque o loiro de olhos azuis seria tão amado desde o berçário? Se você não acredita em mim tudo bem, nem eu acredito em mim de vez em quando, mas vejamos alguns causos que talvez corroborem tal tese:

Primórdios dos anos 2000 (ou segunda metade da primeira década destes –depois consulto a agendinha-): Conversas alheias entre jovens pré-adolescentes numa sala de aula de um colégio brasiliense. Assunto: beleza humana e seus agregados. Gritaria cada vez mais alta assim que um nome masculino novo é lembrado:

- Kayky Britto! (Nota do autor: acredite, ele era a sensação da época).
- Bonito, mas ninguém barra o Thiago Lacerda.

Resultado: ninguém chega a um consenso. A decisão precisa de um voto de minerva. Alguém diplomático deve ser achado:

- Daniel, quem é a mulher mais bonita que você acha? (primeiro, obviamente, uma pergunta sutil, para ganhar simpatia).
- Fácil. Winona Ryder. – respondi.
- Ahn? Quem? – um coro de vozes femininas ressoou na sala esvaziada pelo intervalo.

O que veio depois foi por mim esquecido (mentira, decidi ocultar por questões de que ninguém conhecia, desafortunadamente, a eterna Kim de Edward Mãos-de-Tesoura, e isso não merece citação). Chegamos à parte que interessa:

- E homem? – me perguntaram, novamente.
- Pierce Brosnan – respondi de peito estufado e orgulhoso. Tem alguém mais bonito e charmoso que o próprio 007? (Segunda nota do autor: Brosnan que, aliás, foi o melhor 'Double-O-Seven'.

- Daniel, deixa pra lá – uma delas me contestou-, a gente tava falando de gente viva, tá?

Acredito que depois desta, a minha fama de estranho deve ter aumentado. Mas, sinceramente, o eterno Bond irlandês é muito mais bonito que o Thiago Lacerda, não? As meninas descartaram minha opinião e também não conseguiram fazer o desempate com os outros meninos, que ficavam repetindo que ‘’homem não acha homem bonito’’. Gosto de pensar que até hoje elas não conseguiram decidir, levarão consigo o fardo desta indecisão para sempre. Esta historieta só está aqui porque ela mostra um ponto: podemos ter discordado quanto à beleza de homens diferentes, mas, ainda assim, estávamos defendendo o mesmo padrão desta. Ora, o Thiago Lacerda pode não usar smoking, portar pistola assassina e pedir Vodka Martini (‘’batida, não mexida’’) mas ele é só uma versão mais nova do padrão de beleza do Pierce Brosnan. Portanto, no fim das contas eu era tão influenciado quanto a gangue de meninas que não conseguiam decidir quem era ‘’o cara’’. Talvez, a única vez em que vi uma pessoa sair deste padrão foi, também na escola, quando um amigo trouxe o cadáver de uma cigarra para aula de Ciências da segunda série. Uma das meninas gritou:

- Eca!!! Que coisa horrível!!!

Aquilo o irritou profundamente, com ele não tinha ‘’padrão’’ e, afinal, ele também era um amante da natureza. Encheu o peito de raiva (e ar) e metralhou:

- Acho a cigarra mais bonita que você.

Vale ressaltar que alguns anos depois ele e a mesma menina tiveram um affair, ou como dizem os catedráticos, fizeram uma ‘’baguncinha’’. Talvez ele tenha sido doutrinado pela dinastia dos padrões de beleza, não sei ao certo, mas o fato foi que ela se tornou muito mais bonita que qualquer cigarra.

Prometo refletir a respeito, quem sabe eu me renda também e reconheça que tudo é padrão de beleza, mas, por enquanto, o idealismo não me permite desistir ainda. Por agora, evito a polêmica, já que muitas já tenho em minha vida, como, por exemplo, o dia em que o Grêmio jogou uma final de Libertadores com Tuta no ataque. Aquilo sim -disso tenho certeza-, estava longe de obedecer a qualquer padrão de beleza.

terça-feira, 30 de maio de 2017

O Homem do Medo (e do Fogo)

Um dia desses estava eu andando pelo bairro Getúlio Vargas, o mais antigo da gloriosa cidade de Rio Grande, quando me foi interpelado por uma mulher de aparentes 50 anos, encostada numa parede pichada e moribunda, se eu era o tal biógrafo de Aprigio Paùra. A mulher fumava um cigarro mentolado de péssimo gosto, por sinal, não fazendo caso em lançar sua fumaça em minha face. Respondi que sim, que eu era o tal, e uma curiosidade mortal apossou-se de mim, fazendo-me perguntar do porquê da pergunta. ‘’Conheço uma história que pode lhe interessar’’, respondeu entusiasmada. Apresentou-se como Carla Giotto, filha do falecido Peppe Giotto, amigo de infância de Paùra. Dona Carla explicou-me que seu tio Tottò Giotto, todavia vivia, apesar da idade avançada, e que tinha ainda memórias frescas, passadas por seu irmão Peppe, sobre os feitos de Paùra. ‘’Seria uma pena perder todo aquele conhecimento’’, repetia-me ela em intervalos de 20 ou 30 minutos, para reiterar o peso dos recordos que Don Tottò carregava na mente. Propus um encontro na icônica praça Tamandaré, onde residem os restos mortais do presidente Bento, afim de evitar uma cilada (hoje em dia não dá para se confiar em ninguém, certo?) mas minha proposta foi logo refutada por Carla, dizendo que Don Tottò já tinha idade avançada demais para deixar sua residência, ali no próprio Getúlio Vargas.

- Venha para o almoço –o meio-dia logo se acercava- e você aproveita e conhece as histórias do tio Tottò.

Decidi arriscar, apesar de que não se deve confiar em pessoas que fumam cigarros mentolados, e aceitei seu convite. Seguimos por alguns poucos quarteirões até chegarmos numa casa modesta, de cerca baixa e jardim cuidado com zelo, onde uma caixa de correio de madeira antiga denunciava: Giotto. Batemos na porta (a campainha estava queimada) e Carla gritava ensurdecedoramente: ‘’Tio, sou eu!’’.

Minutos depois a porta abriu-se, o próprio Don Tottò que se apresentava, de terno e gravata e com cabelo platinado.

- Tio, pra que isso tudo? – perguntou Carla
- Ma mia figlia me dice que o Biógrafo tava vindo – respondeu Don Tottò, misturando o italiano com o gaúcho, como todo bom oriundo.
- Com licença, Don Tottò, eu sou... – tentei me apresentar
- Io so quem tu é! Tu é o Biógrafo! – respondeu extremamente empolgado, dando-me a mão trêmula, de emoção.

Interpretei o aperto de mão como um convite para adentrar a casa de Don Tottò, sem antes limpar meus pés no tapete de entrada com as cores da República Rio-Grandense. Notei que, além das paredes de madeira velha e maltratada, o lar de Tottò era bem organizado, com boa ventilação e luminosidade, com uma respeitável sala de apresentação. Pediu-me para que me sentasse em seu sofá e me deu uma cuia de chimarrão sem aviso prévio. Sorri e aceitei. Don Tottò sentou-se ao meu lado e pediu a Carla que trouxesse ‘’Il Tesoro’’, pedido prontamente feito. Carla voltou do interior da casa com uma caixa absurdamente antiga, trazendo uma poeira que ameaçou causar-me alergia. Colocou-a na pequena e baixa mesa que ficava em frente ao sofá de Don Tottò, que, por sua vez, estendeu-se de onde estava até a caixa e retirou de lá algo que eu não podia sequer imaginar: a camisa que Paùra usou no jogo contra o Internacional, no qual saiu de campo desmaiado mas retornou ‘’nos braços do povo’’. Não pude conter a emoção, tomei a maglia em mãos, senti a consistência do algodão embrutecido pelo suor de batalha, passei a mão sobre o escudo costurado e bordado do Rio Grande. Notei que havia uma considerável mancha rubra perto do lado esquerdo do peito: era ‘’a própria’’, a própria mancha de sangue que fora feita por um desleal do ‘’Internacional’’ em Paùra:

- Isso é sangue? – perguntei, abismado, apenas por desencargo de consciência.
- Non! – gritou Don Tottò- É vino!

Como poderia ser vinho? A predileção de Paùra pelo elixir das uvas era conhecida, mas os registros apontavam que aquela mancha deveria ser de sangue. Contestei, consternado, a afirmação de Tottò, apontando os registros históricos:

- Conversa di bolonhês! – gritou- Paùra nunca sangrava, fazia sangrar! – complementou, sem deixar dúvidas.

Era algo a ser melhor estudado, é verdade, mas eu não podia contradizer o amável senhor. Para dizer a verdade, até fiquei feliz que fosse vinho, pois isto talvez corroborasse o fato de que Paùra não sangrava, nem mesmo quando perdeu o pé na guerra.

- Ascoltami – segurou minha mão Don Tottò, retirando desta a porção de papéis que eu folheava fascinado. – Tenho uma boa história para te contar.

Começou pelo ano: 1937. Paùra já reinava há um ano como o rei da zaga do Rio Grande. Era constantemente destacado pelos jornais rio-grandinos como ‘’O Gigante Apuliano que se hidratava com vinho’’ e que nunca tinha perdido um duelo de cabeça. Sua fama como carrasco do São Paulo começava a se gestacionar e, inclusive, gerou-se um grande boato pelas ruas de Rio Grande de que uma equipe de médicos independentes estava comparecendo aos treinamentos de cabeçada de Paùra para entender ‘’os novos limites da testa humana’’.  Foi justamente em um desses treinos que acontecera o causo que Don Tottò queria me contar. Era domingo, dia de jogo, e Paùra decidira, depois de um almoço regado à polenta e galeto, fazer uma ‘’digestón’’ baseada em exercícios físicos, ou seja, um treino de cabeçadas. Moveu-se, poucas horas antes da partida, para as proximidades dos escombros do Estádio das Oliveiras e treinou durante uma hora ininterrupta ‘’os fundamentos da cabeçada’’. Só parou porque avistou um espectro firme de fumaça negra se levantando pelo céu de Rio Grande, fumaça que rapidamente chegava a seus pulmões pelos ventos haraganos. O incêndio era próximo, constatou. Sem ao menos pensar, correu em direção à fumaça como uma flecha, mostrando, obviamente, todos seus atributos como maratonista. Em cerca de cinco minutos estava lá, diante de uma antiga casa de madeira cujo dono era um senhor de avançada idade, segundo os vizinhos que se acumulavam, consternados, em frente às chamas. Paùra perguntou a respeito dos ‘’homens das águas’’, vulgo bombeiros, e lhe responderam que estavam a caminho e que, devido ao estado do fogo, tinham sido instruídos a não entrarem nos escombros.
- Ma como nessuno vai entrar? Il vecchio pede ajuda! – gritou Paùra, raivosamente (Neste momento da história, assegurou-me Tottò, que seu irmão Peppe, do outro lado da cidade, ouvira tal grito de Aprigio, tão ensurdecedor que este fora).

Sem medo ou hesitação, Paúra trombou com qualquer bagual que se pôs em seu caminho e cobrindo apenas o nariz, para evitar inalação de gases tóxicos, adentrou o incêndio mais rápido que o ganho de peso por ingestão de ambrosia. Foram cerca de dez minutos sem sinal de Paùra, nenhum ruído, nenhum indício, nada. Os moradores da região e os baguais que se puseram ali só para assistir começavam a se preocupar, um murmuro de que os dois haviam morrido começava a surgir, timidamente, e quatro senhoras, que moravam do outro lado da rua, iniciaram uma reza de terço coletiva. Assim que o caminhão de bombeiros encostou-se a frente da casa em chamas e espantou todo aquele bolo de gente que cada vez mais se acumulava, Paùra saiu do incêndio, carregando o velho senhor no colo e totalmente sujo de cinzas. Ferimento, ora, Aprigio não tinha algum e, mais importante, suas chuteiras estavam amarradas, ‘’porque beque que é beque nunca corre o risco de pisar no cadarço e cair’’.

‘’A proposito’’, atentou-me Don Tottò, Paùra nunca andava sem chuteiras. Dizem até que dormia e tomava banho com elas, tamanho era seu fascínio por seu ofício, era ‘’definitivamente daqueles que levavam trabalho para casa’’. Não tirou suas chuteiras nem no dia de seu casamento com a estimável dona Francesca Senza, italiana que viera ainda bebê com seus pais para o Rio Grande. Tottò contou, com olhos já um tanto marejados, que se lembra do dia do casamento de Paùra, apesar da pouca idade que tinha, e que seu irmão Peppe fora padrinho do noivado. ‘’Francesca conheceu Aprigio por meio de Peppe, que era seu namorado’’, confidenciou meu já estimado amigo. Daquele casamento a imagem que mais lhe marcou, filosofou, -além das chuteiras de Paùra incrivelmente polidas e brilhantes, sobressaindo-se sobre o terno do ‘’becão’’-, foi o fato de que o padre, um polaco de sobrenome Kobiak, não sabia falar italiano e mesmo assim celebrou a missa inteira nesta língua: ‘’foi um pedido pessoal de Aprigio para ele’’, alertou Tottò.

- Tio, o senhor já tá divagando – alertou Carla, enquanto Tottò falava daquele saudoso dia do casamento de Paùra e Senza, cujo baile tinha um cannoli ‘’de comer ajoelhado’’.
- Vero, vero – concordou meu amigo.

E assim continuou. Entregando o senhor aos bombeiros, Paùra não quis saber de exames clínicos ou avaliação de seu estado físico ou psicológico, ele nunca esteve tão bem. Perguntou que horas eram e tomou um susto quando um dos socorristas lhe disse que eram vinte para as cinco da tarde: o jogo já estava por começar! Pediu uma carona no caminhão de bombeiros, pedido prontamente atendido pelo sargento encarregado da operação, que inclusive deixou um cartão seu com Paùra caso este ‘’quisesse um dia tentar a sorte no ramo’’. O caminhão o largou em frente ao estádio, já abarrotado de gente. Ainda sujo de cinzas do incêndio, as quais recusou-se a limpar por querer ‘’manter o espírito de guerra’’, Paùra passou as catracas correndo e se lançou direto para o campo, onde os times cantavam o hino rio-grandense. Naquela época não havia preleção ou bobagens como concentração, e por isso tanto fazia onde Paùra estava enquanto continuasse chegando ao estádio na hora do jogo. Como um legítimo guerreiro, cantou o hino da nação inteiro, revestido de suor, cinzas, e reboco; vestiu, no campo, sua camisa do Rio Grande que estivera lhe esperando no vestiário e foi para a partida.

‘’Não tinha como duvidar que Paùra marcou naquele jogo, não é?’’, perguntou-me Tottò. Vitória do Rio Grande por dois a zero, contra um adversário tão inferior frente a genialidade do Vovô que seu nome se esqueceu na história. Don Tottò me garantiu que seu irmão, enquanto vivo, jurava de pé junto que naquele jogo Paùra marcara na verdade dois gols, mas sua humildade era tanta que pediu que um gol fosse anulado, já que ‘’beque que se preza nunca faz mais de um gol por jogo’’.  O fato foi que saiu de campo bebendo vinho e com mais uma vitória. Dizem que depois do jogo Paùra foi visto fazendo uma visita ao senhor que havia resgatado do incêndio, e dizem que naquela noite Paùra inventou o coquetel Bellini muito antes de Cipriani. Propôs um brinde à vitória do Rio Grande ao senhor e, na falta de vinho, o fez com uma mistura de suco de pêssego, servido pelas enfermeiras, e espumante, retirado de uma pequena festa de aniversário que acontecia na sala do chefe-plantonista. ‘’Desde aquele dia, o Rio Grande nunca mais deixou de brindar’’, concluiu Don Tottò.

- Tio, o almoço tá pronto. Andiamo?

Don Tottò me mostrou o caminho até a cozinha. Ainda teríamos muito que conversar, mas, graças a Deus, havia fettuccine.

Dorneles Zanoli

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Aranha

As gerações atuais talvez nunca consigam entender o sentimento de ter visto Homem-Aranha no cinema. Não porque o filme em si seja melhor do que os outros tantos de ‘’supers’’ que vieram depois, não é isso, admito –forçadamente, que fique claro- que há filmes melhores que os dois primeiros Homem-Aranha.  Quem era criança na época e que foi ao cinema ver as aventuras e desventuras de Peter Parker sabe bem do que estou falando. Até então, Homem-Aranha só em revistinhas, só no desenho da TV. Ninguém estava preparado para bomba que foi saber que haveria um filme, nem mesmo os computadores de internet discada, que pifavam toda vez que tentávamos fazer o download do trailer. No dia de estreia, a cidade parou, ninguém conseguia chegar ao cinema a não ser a pé, os engarrafamentos eram quilométricos, ninguém queria perder aquela oportunidade de uma vida. Eu entrei no Cine Veneza de nariz alto, ninguém sabia mais do que eu sobre o Aranha. Se alguém soubesse, eu jogava teia na cara, simples assim.

Cheguei à sala de cinema, todo empolgado, com meu irmão e minha mãe, e aguentei os primeiros minutos até o Duende Verde aparecer, devidamente mascarado, dando risadas maléficas e fazendo diabadas. Fiquei num cagaço, saí da sala e quase chorei de medo, aquele ‘’bicho’’ era aterrador, parecia um capeta (naquela época tudo que assustava era ‘’do capeta’’). Perdi alguns minutos de filme até que minha mãe tentou me dissuadir a entrar na sala novamente, prometeu chocolate. Voltei à sala, fiz que não era comigo, dei uma olhadinha de canto de olho e ‘’bum!’’ estremeci todo assim que o Duende apareceu de novo. Naquela hora, eu não voltaria mais para aquela sala nem por decreto! Até que um jovem que eu nunca mais vi na vida apareceu, provavelmente o Peter Parker brasileiro. Ele me convenceu a voltar para a sala, a enfrentar o medo um pouco de cada vez, até que, sem perceber, eu tivesse domínio sobre ele. Fiz o que ele propôs, depois de muita conversa, e... venci o Duende. Quer dizer, vi o Peter Parker americano vencê-lo. Contudo, assim que pisei do lado de fora do cinema, o Homem-Aranha não era só o Peter Parker, era eu também, e decidi que combateria o crime assim que fosse picado por uma aranha geneticamente modificada. Para sorte da vilania brasileira, isso não aconteceu.

Mas não foi o suficiente para me parar. Quem disse que para ser o Homem-Aranha você precisa ser picado por uma aranha? Bom, eu poderia ser o Homem-Aranha no meu condomínio, e deixava a cidade para o Peter Parker real. Eu resolvi alguns crimes e fiz justiça durante alguns dias, como, por exemplo, colocar uma joaninha perdida de volta ao jardim ou impedir que meus amigos pisassem na grama. Faltou a fantasia, mas veja bem, a fantasia do Peter Parker era feita da própria teia dele, que só ele produzia, era um monopólio muito específico para ser batido. Além do mais, todo mundo iria saber que o vigilante mascarado do condomínio era eu, já que eu, talvez, tenha dito a todos meus amigos que eu viraria o Homem-Aranha. É, provavelmente foi um erro de cálculo.

A grande questão, todavia, foi que aquele filme do Homem-Aranha me deixou duas lições importantes: ‘’com grandes poderes vêm grandes responsabilidades’’; e se você quiser comprar um carro para impressionar uma garota não busque dinheiro em campeonatos de luta-livre, eles pagam muito mal. Não foram meus pais que me ensinaram o peso que recai sobre os ombros quando se é importante, e, sobretudo, quando vidas dependem de uma ação correta sua. Sim, não foram eles, foi o tio Ben! E desde aquele filme essa lição nunca me saiu da cabeça, e nem a frase, claro, que convenhamos é uma baita frase de efeito. Como eu era o Homem-Aranha do meu condomínio, esse código moral do tio Ben era o que me guiava em meu caminho contra o mal, e toda vez que eu hesitava em realizar alguma coisa que era importante de ser feita ele estava lá, pairando em minha mente:

- Daniel, come o feijão.

‘’Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades’’.

- Daniel, faz o dever de casa.

‘’Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades’’.

É por essas e outras que Homem-Aranha sempre será o melhor filme de super-herói, porque pelo menos tem algo a dizer, tem algo a ensinar. E quer queira, quer não, muita gente aprendeu. E, ah! Sobretudo, porque o Homem-Aranha é super-herói ‘’raiz’’. No dia em que o Homem de Ferro parar um trem em altíssima velocidade, sem freios, lotado de gente, e em direção a um abismo, com a força dos pés, enquanto estes estraçalham os trilhos para que o trem perca velocidade, ele pode falar comigo. Sinceramente, quase 13 anos depois, o quão mítica ainda é aquela cena? 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Confissões

Já presenciei uma confissão de crime e nada fiz.

Se me lembro bem eu tinha cerca de dez anos e a confissão foi feita por uma aluna do mesmo colégio em que eu estudava, mais velha. Era uma manhã, no período do almoço, e estava acontecendo um dos meus eventos favoritos do calendário escolar: a feira de ciências. Para o ensino fundamental I, do qual eu fazia parte, não havia feira de ciências, não nos era permitido participar e só podíamos nos contentar em admirar quando os "grandões" (apelido carinhoso dado ao pessoal da quinta série para cima) exibiam, de nariz altivo, seus projetos. É evidente que sempre existiam vulcões explodindo alguma mistura suspeita e animais exóticos exumados para exibição, mas eu não estava minimamente preparado para o que eu vi naquele prenúncio de tarde

Pouco antes da minha aula, que era vespertina, fui dar uma olhada na feira, que continuava em fervorosa no ginásio da escola. Eu tinha ouvido um boato de que no estande de anatomia humana existia um cérebro de verdade e que -pasmem!- podia ser tocado. Um dos meus amigos havia absolutamente pirado com este fato, mas eu, sempre cético, estritamente científico e racional, não iria ser convencido tão facilmente. Fui direto ao estande de anatomia e meus olhos quase explodiram ao reparar que o cérebro realmente estava lá, exposto, exultantemente indefeso diante das dedadas que as crianças não paravam de desferir-lhe. Não pude acreditar:



- Esse cérebro é de verdade, mesmo? 

- Sim - respondeu-me uma das moças, que ficava explicando as funções dos neurônios para os passantes.

- Mas como vocês conseguiram um cérebro​?!?!? - já retrucava eu, assustado.

- A gente matou uma pessoa - testamentou ela, sem piscar os olhos vidrados em minhas reações. Um riso cafajeste era ocultado em seu interior. Faces severas.

Dei uma leve risadinha, achei que ela estava brincando, quis descontrair. Ela, contudo, manteve sua mirada séria sobre mim e eu logo vi que estava lidando com uma profissional: 

- Duvido que a escola deixaria vocês matarem uma pessoa pra feira de ciências - decidi desafiá-la
- Pense melhor, amiguinho. Não espalha, viu?

Engoli um soluço seco e saí correndo. Como era possível que a escola abrigasse alunos assassinos? Não podia ser, simplesmente não podia. Mesmo com medo, depois de muito pensar, decidi fazer o certo: denunciá-los. Afinal, éramos cristãos. Adentrei a recepção da sala da tia Lorena, minha coordenadora, e fui recebido por Paulo, uma espécie de secretário:

- Paulo, preciso falar com a tia Lorena, urgente
- A tia Lorena tá no horário de almoço, Daniel. É só com ela?
- Sim, é só com ela. Vou esperar​ ela voltar - concluí, já me acomodando nas cadeiras de espera.
- Mas, pera aí - Paulo me olhou, desconfiado - você não tem aula daqui a pouco? 
- Tenho, mas isso é mais importante.

Paulo me deixou ficar esperando, de vez em quando até me oferecia uma água. Perdi a acolhida das turmas que acontecia todos os dias, para a oração. Depois de mandar todas as turmas para suas salas, tia Lorena apareceu: 

- Daniel, o que você tá fazendo aqui? - perguntou-me ela
- Tia Lorena, graças a Deus! Preciso falar com a senhora, fiquei sabendo de algo muito grave!

Contei-lhe tudo, tudinho: das expressões frias da moça do estande até sua confissão sórdida e cruel. Até acrescentei, para atribuir peso e gravidade ainda maiores à situação: "imagina se a pessoa tiver se filhos, tia Lorena?". Ela me ouviu com paciência, mas não pareceu acreditar muito em mim, afinal, eu já estava queimado na diretoria por não ser ‘‘inteiramente confiável”. Mesmo assim, tia Lorena me disse um "vou ver’’ e mandou-me de volta para sala. Sentenciei:

- Tia Lorena, se a senhora não resolver, vou ter que chamar a polícia.


Uma semana se passou e nada, eu continuamente esbarrava com a moça do estande em intervalos e horários sem aula. Ela, sempre brincalhona, toda vez que me via fazia um sinal de silêncio, clara alusão para que eu me mantivesse calado. Senti uma enorme frustração e minha barriga esfriava toda vez que as aulas de corpo humano, em Ciências, começavam. Desapontado -provavelmente era esta a palavra certa- pois nada havia mudado, absolutamente nada. Talvez esta tenha sido minha primeira experiência com o institucionalismo brasileiro. Comecei a temer por minha segurança, a moça, às vezes, parecia estar em todos os lugares. Pensei na família, nos amigos, nas minhas pessoas queridas, todos eles corriam perigo. O caminho para mim era claro, portanto: delação premiada (eu tinha acabado de ler sobre dissidentes da Cosa Nostra e como eles conseguiam proteção do governo). Eu iria até a polícia e ganharia proteção vinte e quatro horas de policiais treinados e cães mortíferos, pois o que eu tinha a dizer, afinal, era cabeludo. Fácil, todo mundo saía protegido.

Contudo, subitamente, deixei de ver a moça do estande em recreios ou horários sem aula, ela desaparecera que nem fumaça. Talvez tenha ficado sabendo de meus planos, sabe-se lá como, e fugira para fora do país, pensei; ou talvez tenha decidido se mudar de escola (obviamente a solução mais improvável). Magnanimamente encontrei a real resposta, devastei as dúvidas: a consciência pesou.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Paletas de Morango

Existem coisas cujo coração humano nunca se recupera. Uma delas, certamente, é o fim precoce de Penny Dreadful. Ainda tenho dificuldade em versar sobre este fato sem protuberar algumas lágrimas, e por isso que, a partir de agora, este texto falará sobre coisas alegres: paletas de morango. Paletas de morango são ‘’a sensação do verão’’ por onde passam justamente por trazerem o verão consigo. Artesanalmente feitas, com suavidade e frescor provindo da mais singela fruta de morango, elas são a melhor pedida para o calor acachapante que amaldiçoa o Brasil. Excluindo o leite, este elemento destruidor de qualquer picolé de fruta, estas paletinhas reúnem absolutamente ‘’tudo que há de bom’’ e não derretem facilmente, vejam só que maravilha. Com elas, você pode andar distâncias descomunais e não sujar nem um pouquinho da sua mão! Se algum dia, portanto, uma brutal sede lhe acometer, mande a cerveja, o refrigerante e a água (cruzes!) para o inferno e vá direto para a paleteria mais próxima de você. Com o peito inflado e exultante, jogue seus dinheiros com força no balcão de atendimento e urre, aos olhos marejados de emoção, com o horror mais avassalador: ‘’Uma paleta de morango, por favor!’’.

Histórias de amor podem, sim, começar em paleterias, com os protagonistas, obviamente, consumindo paletas de fruta. Acabou esta moda de que os heróis se conhecem em baladas e fumam cigarros para aliviar o stress, isto é bobagem passada. Os mocinhos e mocinhas aliviam a tensão de suas vidas se deliciando com a mais saborosa paleta de abacaxi e hortelã, com direito à de morango de sobremesa. Os próximos romances de Hollywood, segundo fontes, mostrarão relações que começam em paleterias, onde o casalzinho se conhece ou marca de se encontrar pela primeira vez:

- Mãe, tô saindo pra encontrar com o Phil, tá?
- Como assim, menina? Quem é esse?
- É aquele sujeito que conheci na paleteria, de cabelo penteado e barba feita.
- Ah, o do aeromodelismo, né?
- Esse mesmo!
- Onde vocês vão se encontrar?
- Na paleteria do Mark, mãe.
- Olha lá, hein, não vai me voltar pra casa doida de paleta de morango!  Se aparecer assim, não entra em casa!

Esta ‘’Nova Nova Hollywood’’ parece promissora, mas ela só existe por ser fruto da minha cabeça. Ela é um fruto de uma situação que não gostaria de enfrentar, ou seja, aceitar o fim de Penny Dreadful. Mas como é interessante a nossa capacidade de inventar e criar inúmeros subterfúgios e escapatórias apenas para não enfrentarmos a realidade, não é? Como é mais fácil imaginar um mundo de paletóolatras ao invés de discorrer sobre como é difícil aceitar que as aventuras de Vanessa Ives acabaram. Ainda mais complicado e derradeiramente sofrível é fazer isto quando nos parece absurdamente evidente de que ainda não era a hora do fim ou do enfrentamento. Aceitar a realidade como ela se apresenta é muito mais difícil do que comer paleta de morango e é por isso que ela assusta tanto. Mais difícil que isso, aliás, é ser obrigado a dar um passo à frente, como se ignorássemos que dali para frente as coisas ficarão cada vez mais para trás. Dar um passo, muitas e muitas vezes, é mais doloroso que uma caminhada inteira. Mais doloroso, com certeza, que uma mensagem genérica como esta, mas não menos verdadeira. Alguma coisa contra as paletas, depois de tudo? 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Ao vencedor, os matches

A insustentável leveza do ser é medida por sites ou aplicativos de relacionamento. O caso mais clássico e memorável é o Tinder. Aplicativo simpático, chega como quem não quer nada, oferece-te um suporte momentâneo e ligeiro de conforto, e você mergulha diretamente nele. Ele começa com perguntas simples como ‘’por qual gênero você se interessa?” ou ‘’qual o raio de distância que você gostaria de usar para recolher seus crushes?’’ Bom, eliminemos a hipótese que em pleno século XXI ninguém mais usa aplicativos como o Tinder para encontrar a ‘’alma-gêmea’’, até porque, se assim fosse, ela teria que ter nascido no gênero e estar no raio de distância delimitados. Questões burocráticas, claro, não há tempo para soulmates quando o assunto é urgência de parceiros para ver Netflix abraçadinhos.

Preciso confessar –senão ninguém sentirá empatia por mim-, eu sou um membro dissidente do Tinder. Sim, confesso que já tentei algumas vezes, quando o desespero bateu. Nas primeiras vezes baixei-o e fiz que não era comigo, deixava-o lá, um tanto quanto recluso, e jogava a responsabilidade para o colo do destino: arrume-me a próxima Winona Ryder. Claramente, o destino tem mais o que fazer, como, por exemplo, decidir os rumos do Dominic Toretto (de preferência rapidamente), e ele não me dava muito ouvidos. Assim, tão rápido quanto o baixava, eu abandonava o Tinder. Começava uma gangorra entre usá-lo ou não, entre participar da rodinha do conhecimento facilitado ou jogar a toalha definitivamente e se isolar na Sibéria. No fim das contas, fiz o que todos fariam: fui para a Sibéria.

Numa das manhãs gélidas, silenciosas e acinzentadas da Sibéria, me veio à mente algumas constatações simples sobre o Tinder e assim que peguei o trem de Vladivostok para Moscou decidi escrever este texto. Ouso dizer que meu derradeiro momento com o Tinder foi sombrio, toda vez que eu adentrava o universo dos matches forçosos eu me sentia mal, e talvez por isso eu tenha acabado numa cabana com mujiques e iluminação natural. O mais impressionante do Tinder é sua capacidade de, digamos por querer facilitar as coisas, transformar as pessoas em espécies de mercadoria. Uma arrastada simples de dedo para a direita ou esquerda e você decide um possível futuro. Neste jogo que é o Tinder, cada um deve vender seu peixe, porém geralmente o peixe vendido é o que é mais bonito. Claro, descrições às vezes fazem a diferença, aquele belo momento em que você busca, desesperadamente, se autopromover: ‘’Daniel, 21 anos, atleta profissional, vencedor do episódio quatro da segunda temporada de ‘’Largados e Pelados’’, detentor do recorde de escalada mais rápida do Tibidado (sem equipamento de proteção), capaz de prender a respiração por 453 segundos...’’. Nem sempre dá certo, até porque as melhores descrições de perfil no Tinder são aquelas que dizem ‘’Não uso o Tinder’’ ou ‘’Procuro amizades’’, mas a campeã, realmente, é ‘’Seu amor não está no Tinder’’ (seriam estes os legionários do anti-amor?).

Conforme eu ‘’excluía’’ pessoas no Tinder, eu realmente me sentia gradativamente pior, pois quantas pessoas interessantes, e que poderiam me fazer bem, eu estava excluindo por conta de sua aparência? Este texto não é mais um roteiro de Shrek, onde a mensagem final é que ‘’aparências não importam e, sim, se o coração <3 é bonito’’, poderia até ser, mas não é. A única constatação que me vem à cabeça e que lanço aqui é: será que esta é realmente a maneira correta de conhecer pessoas? Claro, falo de certo ou errado, e não de praticidade ou eficácia, até porque o Tinder existe para atender a estes dois últimos requisitos.

Talvez as próximas histórias ou grandes romances da literatura mundial comecem com o mocinho(a) conhecendo a mocinha(o) pelo Tinder e indo tomar um ‘’goró’’; nada os impede, já que nada também impede o Tinder de dar um empurrãozinho para futuras relações duradouras. Seria hilário ver o próximo Bentinho e a próxima Capitu se conhecendo por um aplicativo de relacionamentos­, se apaixonando, e tendo suas crises de relacionamento porque um deles conheceu um tal de ‘’Escobar’’ pelo Happn (licenças poéticas aqui, claro). Eu imagino como seria o primeiro encontro deles, em algum bar carioca da zona Sul:

- Prazer! Eu sou o Bentinho!
- Prazer! Capitu!

O encontro estende-se por quatro horas. Bentinho bebe cerveja e Capitu pede um destilado. Alguns momentâneos e constrangedores silêncios (eles conversaram todos os assuntos possíveis pelo celular, tudo que podia ser perguntado já havia sido). Apenas no final, antes de Capitu entrar em seu carro, é que o tão esperado beijo acontece, afinal, porque não esperar até o final do encontro para ter alguns minutos de beijocas quando todos os envolvidos já sabem do interesse mútuo mostrado pelo próprio Tinder?

(Sai o narrador, entra Machado de Assis. Os próximos capítulos sairão nos posteriores folhetins).