quinta-feira, 28 de maio de 2026

Canção de ninar a meu amor morto

Hoje sepulto em finito
Meu amor há tanto já morto.

Não vos incomodai em procurar pelas bancas ou obituários,
Nos cochichos fofoqueiros, ou nos ruídos dos rádios:
Nada será registrado, tudo já estará enterrado.

Não procurai por nomes, não:
Poupai-me de todo e qualquer acosso,
Decidido está ignorar-vos de antemão,
Já que custa quase todo o resto de mim
Engolir o gosto insosso do real fim
Do fim.

Amor, peço-te profundo perdão:
Como injusto foi guardar-te sem pulso,
Gelado e amordaçado,
Em meu suntuoso peito de escuridão.
Culpada terá sido a esperança, quem sabe
– Da qual nem sabia eu deter –
De que teus olhos reabertos rejeitariam tua enclausurada mortalidade.

Mas hoje, prometo, faço-te justiça
E deixo-te repousar enfim —
Longe da igual morta esperança em mim,
Adormecido em paz devida.
Esta paz, que nunca há de ser maculada por curiosos insólitos,
Garantidamente eterna e altiva, a ti informo:
Sepulto-te, amor meu, com tudo que sobrou de mim próprio.

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