domingo, 30 de agosto de 2026

In medias res

Golias cai esta manhã,
diante do ímpeto de um velho ou novo Davi,
sem louros ou fadiga
daqueles que o nomearam Golias.

Treme, treme o solo cascudo 
enquanto seu corpo destrona o natural do mundo
e como um sussurro
—de um ser que antes carregava tudo—
a pedra que o vitima ainda é ouvida. 

"Golias abaixo de Golias", repetem alguns Davis.
As areias rarefeitas o varrerão deste pútrido terreno 
e não haverá mais a quem lembrar que tal futuro perecido 
um dia foi chamado 
–até mesmo por Davis– 
de Golias. 

O grito das sedentas aves de rapina, 
cessará, por fim, o eco da pedra que ao homem desfez,
para desmemoriar, com a benção da poeira, 
até a mais simples da lembrança 
de que alguém, um dia, 
foi Golias. 

Mas ainda treme o solo cascudo
—para surpresa dos que assistem—,
ao passo que surge, grita e depois urra
o mais assombroso dos ecos:
flutua junto à areia o terror em pergunta
"que virá após Golias?"

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Fractais

Fractais, fractais, fractais:
Cada peça em seu pouso
Pode mais que ledo esconso
De lembranças ancestrais.

Pode mais: o conjunto; o conteúdo
das cores em vida
– todas, na luz, por fim reunidas –
altera o estado do leito fosco
para simples harmonia e acolhida.

Fractal, dá cor à cor,
ao passo do espaço,
é infindo, pois da luz colorida
brilha
o sorriso
d'um novo caminho.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Lotus

The doom of May is already at hand
to be discouraged by a mystic shift,
coming along with no longer steady stance
and the dismay of any soul adrift. 

The pace of suffering burns with no claim now.
So delighted be those who can't allow the cold to survive,
delighted be the ashes sunk into the months born after full oblivion,
and be awakened at another Spring's vow.

Time it is to set course to untold gardens,
born long ago in the most humanly winter,
when any recollection of souls seemed as unlikely as a single stem risen.

Time is set to be a fallen leaf
that decided, along merciless wind,
to fly around in the hollow nest of dead green,
and break free from any empty hearse
in the Second Coming of a brand new horizon.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

In absentia


Desde pequeno,
Desde antes do nascimento,
Já senti que me amavas,
E mesmo com o passar do tempo,
a des-ação de nós mesmos,
Eu sabia que aquele amor restava.

Neste momento,
Em que o tempo já nos teve
—por tanto tempo—
Quero dizer-te que ele ainda não te deteve,
Quero recitar que em tua ausência
Nada, mesmo na impaciência, pereceu,
Quero declarar que aqui ainda estou eu.

Meu pai! Se eu puder te dizer algo mais
Alguma coisa tonta ou duradoura,
Por mais que não me ouças,
É que nada está acabado:
Nada nunca estará acabado.
Então, se puderes fitar o céu estrelado,
Lembra-te daquele dia
Em que seguraste-me a mão pela primeira vez,
O momento em que tudo de fato se fez,
Enquanto o sol subia.

sábado, 11 de julho de 2026

Amasia

Passamos reto ao lado da cidade das casas coloridas, reto.
Recusamo-nos a nela virar,
Preferimos o rumo dos montes um pouco depois,
Preferimos o branco que tomava tudo, até o horizonte.

Foi em meio a toda aquela neve infinita
Que teu longo cabelo vermelho, 
Brilhando na ausência do sol e da cor,
Era o suficiente para colorir tudo o que deixamos ultrapassado:
Toda a cor deixada em Amasia estava reparada,
Todas as cores do mundo ali estavam,
Naqueles teus fios encarnados.

Tropeçamos e caímos juntos,
Passamos frio naqueles montes juntos,
Afundamos ao caminhar juntos,
E não falhamos em sentirmo-nos seguros juntos.

Ao voltarmos, ao deixarmos o presente ser passado,
Amasia e suas coloridas casas e morros pálidos eram nada,
Shirak era nada,
Estar rodeado pelo local mais frio da Armênia era nada:
Não tremi, não
–nem por um segundo–
Pois nenhum inverno alcançava o segurar de tua mão.
Naquele momento eu, sim, estava
No local mais quente que jamais poderia,
Seja um dia na vida,
Um dia no mundo,
Um dia em tudo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Statu quo

Lua ou sol,
Já não se podia diferir,
Na marcha rumo ao cume
Tudo que havia de pairar era a luz:

A luz nas costas que carregavam a si próprio,
O furor das tochas a clamar para que se fosse,
Luz contra luz, cegando cada qual,
Sem respeito, apertando-lhe, cada mais, sua falta de voz.

No momento de tudo se apagar,
– luar ou sol, fogo ou raiva –
Não mais bastaria gritar:
Melhor seria fechar o olho e
Simplesmente
Deixar estar.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Palíndromo

Esse, esse eu,
outrora satisfeito com o reviver,
A sós infastiou-se desse velho ''eu, eu, eu''
E, a despeito de socos e sopapos, quis a si reler.

Embarcado omissíssimo,
Rejeitando, ignorando, tudo de mim supostamente entendido,
Destrocei as portas das salas ocultas de meu ser:
De verdade, fui até o osso
Para, deste desarranjo de mau moço,
Ver raiar a aurora de um novo reger.

Ai, ai, quanto labor este tolo afã reteu!
Logo, abram alas, meus caros; abram alas!
Depressa inalem o oco das migalhas provocadas,
Pois já se apaga esse hercúleo trabalho de Prometeu.

Tolo, sim, ele foi - e cabe agora aceitar o rever.
Cada pilastra do eu derrubada mostrou, não mais;
Que, ainda que moído, não se escapa do ser:
de trás para frente, de frente para trás,
Invertida ou não, repousa
A mesmíssima cousa.