sábado, 11 de julho de 2026

Amasia

Passamos reto ao lado da cidade das casas coloridas, reto.
Recusamo-nos a nela virar,
Preferimos o rumo dos montes um pouco depois,
Preferimos o branco que tomava tudo, até o horizonte.

Foi em meio a toda aquela neve infinita
Que teu longo cabelo vermelho, 
Brilhando na ausência do sol e da cor,
Era o suficiente para colorir tudo o que deixamos ultrapassado:
Toda a cor deixada em Amasia estava reparada,
Todas as cores do mundo ali estavam,
Naqueles teus fios encarnados.

Tropeçamos e caímos juntos,
Passamos frio naqueles montes juntos,
Afundamos ao caminhar juntos,
E não falhamos em sentirmo-nos seguros juntos.

Ao voltarmos, ao deixarmos o presente ser passado,
Amasia e suas coloridas casas e morros pálidos eram nada,
Shirak era nada,
Estar rodeado pelo local mais frio da Armênia era nada:
Não tremi, não
–nem por um segundo–
Pois nenhum inverno alcançava o segurar de tua mão.
Naquele momento eu, sim, estava
No local mais quente que jamais poderia,
Seja um dia na vida,
Um dia no mundo,
Um dia em tudo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Statu quo

Lua ou sol,
Já não se podia diferir,
Na marcha rumo ao cume
Tudo que havia de pairar era a luz:

A luz nas costas que carregavam a si próprio,
O furor das tochas a clamar para que se fosse,
Luz contra luz, cegando cada qual,
Sem respeito, apertando-lhe, cada mais, sua falta de voz.

No momento de tudo se apagar,
– luar ou sol, fogo ou raiva –
Não mais bastaria gritar:
Melhor seria fechar o olho e
Simplesmente
Deixar estar.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Palíndromo

Esse, esse eu,
outrora satisfeito com o reviver,
A sós infastiou-se desse velho ''eu, eu, eu''
E, a despeito de socos e sopapos, quis a si reler.

Embarcado omissíssimo,
Rejeitando, ignorando, tudo de mim supostamente entendido,
Destrocei as portas das salas ocultas de meu ser:
De verdade, fui até o osso
Para, deste desarranjo de mau moço,
Ver raiar a aurora de um novo reger.

Ai, ai, quanto labor este tolo afã reteu!
Logo, abram alas, meus caros; abram alas!
Depressa inalem o oco das migalhas provocadas,
Pois já se apaga esse hercúleo trabalho de Prometeu.

Tolo, sim, ele foi - e cabe agora aceitar o rever.
Cada pilastra do eu derrubada mostrou, não mais;
Que, ainda que moído, não se escapa do ser:
de trás para frente, de frente para trás,
Invertida ou não, repousa
A mesmíssima cousa.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Canção de ninar a meu amor morto

Hoje sepulto em finito
Meu amor há tanto já morto.

Não vos incomodai em procurar pelas bancas ou obituários,
Nos cochichos fofoqueiros, ou nos ruídos dos rádios:
Nada será registrado, tudo já estará enterrado.

Não procurai por nomes, não:
Poupai-me de todo e qualquer acosso,
Decidido está ignorar-vos de antemão,
Já que custa quase todo o resto de mim
Engolir o gosto insosso do real fim
Do fim.

Amor, peço-te profundo perdão:
Como injusto foi guardar-te sem pulso,
Gelado e amordaçado,
Em meu suntuoso peito de escuridão.
Culpada terá sido a esperança, quem sabe
– Da qual nem sabia eu deter –
De que teus olhos reabertos rejeitariam tua enclausurada mortalidade.

Mas hoje, prometo, faço-te justiça
E deixo-te repousar enfim —
Longe da igual morta esperança em mim,
Adormecido em paz devida.
Esta paz, que nunca há de ser maculada por curiosos insólitos,
Garantidamente eterna e altiva, a ti informo:
Sepulto-te, amor meu, com tudo que sobrou de mim próprio.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Purpleness

Fear it not, fear it not:
Glance embraces the spirit of haste.
So fear it not, fear it not 
And look for sighs of grace in your moment of glaze.

No more seriousness will endure vacant,
So forget it not to smile towards demise:
Heaven or hell, crusted or not, in your chest
Rejoice in what's blatant
As long as you rest.

Then forget me not, love
Forget me not.
I shall be awaiting you, as it ever was
Even before I was born

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Favor dar teu nome

Para Izm

Quando acordares, lembra-te de cruzares o céu feito cotovia.
Guarda o sereno em teu peito como compasso e bata asa:
se o caminho é longo, infinda é tua fortaleza.
Cotovias ao vento não olham para trás,
descerimoniosas percebem só o que à frente se leva, logo
quando do repouso te aproximares, verás com clareza que
verdes vivos são os prados aos quais levam tuas veredas!

Tão frondosa, vês? Tua jornada d'onde tudo do mais floresce?
Percebe, como cotovia, que não há desatino possível enquanto tramas tua trama?
Tudo nasce, tudo respira:
tudo há.

Tem fé: em tuas veredas e prados verdes.
Eles serão a colheita da joia do teu viver,
pois aquilo tudo que retumba da esperança
triunfa junto ao afinco do querer.

Disso tudo, permanecerá o fim daquilo que é bruto e ingrato em teu mundo.
E quando te esgueirares ao canto d'alguma velha vitrola,
não conseguirás evitar o grande fascínio 
- maior até que teu próprio mundo -
de sorrires tua majestosa vitória.



Abril, 2026

domingo, 12 de outubro de 2025

O tempo sempre soube que te amo

Não me lembro quando,
Nem como,
Tampouco pr'onde vamos
e, assim, desse tanto,
tudo que eu poderia dizer um dia é
O quão amável é amar.

És a única que sabes todas as palavras,
—a única a saber o que penso antes de meu pensamento—
o milagre que da carne nasceu e que de turquesa própria perecem sofrimentos.

Se todas as coisas vão um dia na vida,
Se, de repente, tu mesma fores sem mim,
—nesta tua aura de serafim—
Aqui dentro, no interno que só tu conheces, nada há de mudar:
em meu coração, nunca existirá
o momento de tua partida.

(escrito em 2013)