segunda-feira, 20 de abril de 2026

Favor dar teu nome

 Para Iz


Quando acordares, lembra-te de cruzares o céu feito cotovia.
Guarda o sereno em teu peito como compasso e bata asa:
se o caminho é longo, infinda é tua fortaleza.
Cotovias ao vento não olham para trás,
descerimoniosas percebem só o que à frente se leva, logo
quando do repouso te aproximares, verás com clareza que
verdes vivos são os prados aos quais levam tuas veredas!

Tão frondosa, vês? Tua jornada d'onde tudo do mais floresce?
Percebe, como cotovia, que não há desatino possível enquanto tramas tua trama?
Tudo nasce, tudo respira:
tudo há.

Tem fé: em tuas veredas e prados verdes.
Eles serão a colheita da joia do teu viver,
pois aquilo tudo que retumba da esperança
triunfa junto ao afinco do querer.

Disso tudo, permanecerá o fim daquilo que é bruto e ingrato em teu mundo.
E quando te esgueirares ao canto d'alguma velha vitrola,
não conseguirás evitar o grande fascínio 
- maior até que teu próprio mundo -
de sorrires tua majestosa vitória.



Abril, 2026

domingo, 12 de outubro de 2025

O tempo sempre soube que te amo

Não me lembro quando,
Nem como,
Tampouco pr'onde vamos
e, assim, desse tanto,
tudo que eu poderia dizer um dia é
O quão amável é amar.

És a única que sabes todas as palavras,
—a única a saber o que penso antes de meu pensamento—
o milagre que da carne nasceu e que de turquesa própria perecem sofrimentos.

Se todas as coisas vão um dia na vida,
Se, de repente, tu mesma fores sem mim,
—nesta tua aura de serafim—
Aqui dentro, no interno que só tu conheces, nada há de mudar:
em meu coração, nunca existirá
o momento de tua partida.

(escrito em 2013)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Pinho

Andava - como pulso que não pulsa,
claudicante pela dor do que convém,
ali que um pinho fez-me pluma:
"Vida, sê bem-vinda - amen!
Dá-me o eterno deste couto que advém,
ouve o ressuscitado peito que urra!"

Ó, pinho, ó pinho: das madrugadas aos dias,
quando, perdido no tempo, do aroma incandescia
a brasa cá dentro do memento
de que tudo que era vivo florescer só podia.

Maldita tanto é a morte,
que a tudo ceifa
- menos a inconformidade, mal feita,
do corpo meu, d'alma feito nu,
quando junto à lágrima o pinho pereceu.

Semear, outubros adentro - à fundo e ao mundo,
testigo fosse de um emendo!
Mas não, nunca mais há de haver outro pinheiro,
tão bem capaz de dar-me o prêmio
de amar-te mais do que a mim mesmo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Exhale

What is life but a daydream?
There I was when the last color sowed, 
And rage was no longer an ode: 
As awaking faces strode
Towards my faulty ticking heartbeat,
Could life be no more than a mere defeat 
Or a lore pack of daydreams? 

I daydream about the last dance at the shore, 
Smelling the seaside's hoar, 
But tides tell no lies: those a roars.
No fool, embrace the sea for good:
As the waves lack mood, 
Shall we dance as we soar.

I daydream about the life of the infant one:
Angelical witchcraft blessed by the sun:
Reality meets sanity with stun,
And, ya, miracles by true names -
Infinite laughter, wrath with no claim. 

I daydream about mountains.
Have they not been the sacred silence of dream?
No higher than the peak,
And no concessions, indeed: 
Restful sand and slashing wind, 
Might they find an embrace by the rest of me.

Now memory shall be no more
I will go gently to the tore
With galant sights of old seams
And a pack of soared daydreams.



sábado, 23 de setembro de 2023

Abovyan 21

Ali na Abovyan,
estive a sentar. 
Enquanto buzinas e roncos incessavam,
Pairava junto a mim um cartaz de filme de Komitas.

Três velas foram acesas,
quando o arguto altar mordiscou a mim:
"A este sítio nada derruba, 
Astvatsatsin" 

Pensei em cantos meus e não-meus, 
no khachkar agora no bolso, 
nos olhos daqueles que por cá passam e hão de passar, 
nas montanhas de Artsakh ou acolá, 
e nos Santos em eterno repouso. 

Se a terra sozinha tantas vezes tremeu e hoje o metrô também o faz, 
a Papoula da memória, como a do(s) Monte(s) que nunca deixou(ram) de estar, concorda:
a este Sítio nada há de derrubar.

Ali na Abovyan, acho que ouvi:
"Em meio aos muros, árvores ainda crescem,
já que a existência não está quanto mais ao topo, 
mas quanto mais profunda a raiz."

(Escrito em novembro de 2021)

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There at Abovyan,
I was sitting.
While horns and snoring went on and on,
a Komitas' movie poster by me kept on.

Three candles were lit,
as the sensitive altar nibbled at me:
"Nothing can tear this place down,
Astvatsatsin".

I thought of songs of mine and not-mine,
the khachkar now in my pocket,
in the eyes of those who pass and will pass by,
in the mountains of Artsakh or close,
and the Saints in eternal repose.

If the land alone has trembled so many times 
and nowadays' subway seeks same might,
the Poppy of memory, like that one of the Mount and Montes who never ceased to be, yet vows:
"nothing can tear this Site down".

There at Abovyan, I guess I heard stood:
"In the midst of the walls, trees still grow,
because existence is not the higher up you go,
but the deeper the root."





terça-feira, 18 de julho de 2023

Porfiado

Vuela:
Emancipación, enmudeció el color
El cielo engrasado un pajarito cortó
Las plumas hacen la rima, dijo inocente palomita
Y el viento, informan las alas, el tiempo sublimó

Golpea el sol a la nube: ¡vive un presente memorioso, pibe!
- Marchar y marchar hacia el futuro imparable,
Canarios deciden, 
Que se impone olvido acceptable 

Bajó un pajarito, porfiado hizo ruido:
Quien maculado sobrevive?
Cuántos latidos se le permite al corazón entero? 
Me mira a mí y sonríe: 
por naturaleza dejó sus pasos en el sendero

Bajó un pajarito, helado al suelo, cantó 
Cuál es el precio del olvidado
Y a la vida, una feria de recuerdos, guiñó
Que el pago es todo lo dejado:
el existir entero, en tus brazos quedado.

sábado, 8 de julho de 2023

Bipolar

Marcos nunca tinha ouvido falar da condição de Seu Gibran até que o conheceu pela primeira vez. No elevador, enquanto subiam para o almoço, sua namorada, Ieda, lhe informou:

- Então... O pai é meio bipolar...

Marcos interrompeu:

- Mas ele toma lítio?
- Não é bem isso... Enfim, não comenta nada sobre política.

Entraram na casa, a mesa já estava posta: Seu Gibran, à ponta, já segurando um garfo; e Tadeu, na outra, o filho mais novo.

Dona Eulália, a matriarca, ia dando as boas vindas, quando ouviu um grito, de Seu Gibran:

- No tempo da ditadura, à essa hora a louça já tava até limpa.

Todos se sentaram rapidamente: parecia um recado. Marcos sentiu-se mal pelo atraso de 10 minutos, mas a marginal estava de matar. Tentou puxar qualquer assunto com Seu Gibran, o mais longe de política possível:

- Então, Seu Gibran, o senhor gosta de cachorro?
- Só daqueles que farejam droga e prendem esquerdista na universidade. Baita antro de maconheiro...

Ieda deu um sorrisinho. Eulália tentou puxar assunto, Tadeu manteve-se mudo.

- Eh, então, Marcos... O que você faz?

Seu Gibran interrompeu:

- Vive mamando no Estado, claro. Percebi na hora que entrou.

Mais um silêncio, cerca de cinco minutos. Marcos ainda estava em choque quando Seu Gibran puxou-lhe o braço:

- Piá, o que tu achas do coletivismo proletário?
- Bom, eu...

Ele não conseguiu completar a frase sem novamente ser interrompido:

- As condições pensadas por Lênin estão se adequando ao Brasil. A revolução é inevitável.

Marcos não conseguiu mais falar naquele almoço, só sorrisinhos e risadinhas. O pavê ficou para depois. Depois Ieda lhe explicou: seu pai era um bipolar político. Ele assumia posições de esquerda e direita em certos períodos.

Ieda listou exemplos: uma vez Seu Gibran filiou-se ao PFL e disse que brizolista só servia para alimentar mosca, em uma convenção do PTB. Em outra, defendeu em uma praça, aos berros, a necessidade do Estado mínimo. Quando alguém lhe perguntou quanta gente caberia nesse Estado, argumentou:

- Um carteiro, um leiteiro e um comediante. O resto é queimar dinheiro.

Variava: um dia saiu de casa de terno e voltou de macacão e chave de fenda na mão. Era período de Páscoa e Tadeu perguntou-lhe do chocolate:

- Chocolate é distração burguesa para que o proletariado não se foque em seu destino manifesto.
- Mas, pai, todo mundo na escola ganhou ovo... - respondeu um tristonho Tadeu.
- E um revolucionário é todo mundo?

Ao invés disso, Tadeu ganhou, de Páscoa, um manual de como construir barricadas em rodovias.

Por falar em ovos, uma vez dona Eulália fazia omelete quando Gibran, lentamente, por trás se aproximou:

- E esses ovos? Nunca leu "A Revolução dos Bichos"? Ah, então você está do lado dos porcos, né?

Houve um período em que ninguém aguentava mais. Gibran ia ao psicanalista porque só podia ser coisa para Freud explicar, pensava Eulália. Mas, na maior crise, quando seu marido disse "só no Brasil" pela 45° vez em uma única manhã, ela chutou a porta do consultório do doutor Mantovan e disse:

- Olha, doutor: ou você deixa o Gibran normal ou eu te levo para morar lá em casa.

O doutor olhou pacientemente, mexeu na barba, ajeitou os óculos, acomodou-se em sua poltrona e proferiu:

- A senhora já contemplou o quão profundo é o significado da palavra "normal"?

Gibran largou a terapia. Eulália decidira que ia ser assim até o dia em que o esganaria. Deixou a família toda sabendo - inclusive seu próprio marido, que não deixou de proferir um lacônico "estão vendo quais são os métodos da esquerda?".

Dois meses depois daquele almoço, e sem nenhuma notícia de casa, Ieda achou que o pior já tinha acontecido. Telefonou-lhes e Tadeu atendeu:

- Você não vai acreditar. O pai parou.
- Assim do nada?
- Quer dizer, agora ele não troca mais o lado político, nem fala mais de política, na verdade. Agora ele troca de time. Esses dias disse que a zaga do Pelotas "não dá" e disse que quando "era piá, aí sim, o Pelotas tinha zagueiro que sabia cabecear’’.
- Mas ele nem gosta de futebol!
- Exatamente - respondeu Tadeu, aparentando contentamento.

Todos acharam uma troca justa.