terça-feira, 4 de agosto de 2026

Bagre (in memoriam)

escrito em 03/08/2026

A vida é um exercício de memória, algo que começa antes mesmo de nascermos. Até quando ela permanece, se assim ela é, depois que partimos do mundo físico? A resposta, me parece, está parcialmente em ‘‘Origens’’: não se morre realmente porque a memória fica. 

Em uma história conhecida, os Fagundes participaram de um festival em São Borja que exigia dos compartes que, na passagem da Sexta-Feira Santa para o sábado, uma música inteira fosse construída e apresentada. Nico, em um momento típico de seu brilhantismo, teve a ideia basilar para ‘‘Origens’’ e, deste ponto em diante, surgiria, em tempo recorde, a maior música do grupo (em minha singela opinião). Mas nada disso seria possível sem o apoio de músicos de mão-cheia como ele, que estavam a seu lado naquele e em tantos outros momentos. 

Não consigo imaginar o impacto que a identidade musical gaúcha teria se não existisse Bagre Fagundes. Ouso pensar que nada seria como foi se não tivesse existido uma parceria entre dois irmãos musicalmente singulares que um dia tocaram uns acordes e saíram de Alegrete para transformar não só sua própria história, mas também a identidade de milhões de gaúchos.  

É o tipo de pensamento que se reforça pela lembrança do que se vive, pelo prazer de ter conhecido Bagre pessoalmente em 2023, por exemplo. Foi um impacto imediato: eu gostava de ver como ele se lembrava de tudo ‘‘de ouvido’’ e, no meio daquela roda familiar de voz e violão, cantava em um estado quase que meditativo. Era como se, quando soltava a voz, entrasse em comunhão com o som que ecoava das cordas tocadas por seu filho Paulo em seu estado mais puro. Era um ato essencialmente transcendental. Naquele dia, Bagre me ensinou muitas coisas por meio do simples fato de ser quem era: nada mais era necessário, ele já era um professor sem precisar parar para dar aula. 

Agora, no momento de seu ‘‘até logo’’, tudo volta à consciência, e entendo o conjunto de significados de seu legado. É tudo muito mais além de ter sido um músico ímpar, pai de músicos ímpares, irmão de músico ímpar, e de carreira ímpar. É sobre o que vai além deste plano e o que não morre, apesar da partida física. É sobre a memória do que foi e do que fica: aquela coisa que nos torna de fato eternos. Logo, tal como foi escrito em ‘‘Origens’’, eu sei que Bagre não vai morrer, porque dele vai ficar o mundo que construiu, o seu Rio Grande, o seu lar.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

In absentia


Desde pequeno,
Desde antes do nascimento,
Já senti que me amavas,
E mesmo com o passar do tempo,
a des-ação de nós mesmos,
Eu sabia que aquele amor restava.

Neste momento,
Em que o tempo já nos teve
—por tanto tempo—
Quero dizer-te que ele ainda não te deteve,
Quero recitar que em tua ausência
Nada, mesmo na impaciência, pereceu,
Quero declarar que aqui ainda estou eu.

Meu pai! Se eu puder te dizer algo mais
Alguma coisa tonta ou duradoura,
Por mais que não me ouças,
É que nada está acabado:
Nada nunca estará acabado.
Então, se puderes fitar o céu estrelado,
Lembra-te daquele dia
Em que seguraste-me a mão pela primeira vez,
O momento em que tudo de fato se fez,
Enquanto o sol subia.

sábado, 11 de julho de 2026

Amasia

Passamos reto ao lado da cidade das casas coloridas, reto.
Recusamo-nos a nela virar,
Preferimos o rumo dos montes um pouco depois,
Preferimos o branco que tomava tudo, até o horizonte.

Foi em meio a toda aquela neve infinita
Que teu longo cabelo vermelho, 
Brilhando na ausência do sol e da cor,
Era o suficiente para colorir tudo o que deixamos ultrapassado:
Toda a cor deixada em Amasia estava reparada,
Todas as cores do mundo ali estavam,
Naqueles teus fios encarnados.

Tropeçamos e caímos juntos,
Passamos frio naqueles montes juntos,
Afundamos ao caminhar juntos,
E não falhamos em sentirmo-nos seguros juntos.

Ao voltarmos, ao deixarmos o presente ser passado,
Amasia e suas coloridas casas e morros pálidos eram nada,
Shirak era nada,
Estar rodeado pelo local mais frio da Armênia era nada:
Não tremi, não
–nem por um segundo–
Pois nenhum inverno alcançava o segurar de tua mão.
Naquele momento eu, sim, estava
No local mais quente que jamais poderia,
Seja um dia na vida,
Um dia no mundo,
Um dia em tudo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Statu quo

Lua ou sol,
Já não se podia diferir,
Na marcha rumo ao cume
Tudo que havia de pairar era a luz:

A luz nas costas que carregavam a si próprio,
O furor das tochas a clamar para que se fosse,
Luz contra luz, cegando cada qual,
Sem respeito, apertando-lhe, cada mais, sua falta de voz.

No momento de tudo se apagar,
– luar ou sol, fogo ou raiva –
Não mais bastaria gritar:
Melhor seria fechar o olho e
Simplesmente
Deixar estar.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Palíndromo

Esse, esse eu,
outrora satisfeito com o reviver,
A sós infastiou-se desse velho ''eu, eu, eu''
E, a despeito de socos e sopapos, quis a si reler.

Embarcado omissíssimo,
Rejeitando, ignorando, tudo de mim supostamente entendido,
Destrocei as portas das salas ocultas de meu ser:
De verdade, fui até o osso
Para, deste desarranjo de mau moço,
Ver raiar a aurora de um novo reger.

Ai, ai, quanto labor este tolo afã reteu!
Logo, abram alas, meus caros; abram alas!
Depressa inalem o oco das migalhas provocadas,
Pois já se apaga esse hercúleo trabalho de Prometeu.

Tolo, sim, ele foi - e cabe agora aceitar o rever.
Cada pilastra do eu derrubada mostrou, não mais;
Que, ainda que moído, não se escapa do ser:
de trás para frente, de frente para trás,
Invertida ou não, repousa
A mesmíssima cousa.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Canção de ninar a meu amor morto

Hoje sepulto em finito
Meu amor há tanto já morto.

Não vos incomodai em procurar pelas bancas ou obituários,
Nos cochichos fofoqueiros, ou nos ruídos dos rádios:
Nada será registrado, tudo já estará enterrado.

Não procurai por nomes, não:
Poupai-me de todo e qualquer acosso,
Decidido está ignorar-vos de antemão,
Já que custa quase todo o resto de mim
Engolir o gosto insosso do real fim
Do fim.

Amor, peço-te profundo perdão:
Como injusto foi guardar-te sem pulso,
Gelado e amordaçado,
Em meu suntuoso peito de escuridão.
Culpada terá sido a esperança, quem sabe
– Da qual nem sabia eu deter –
De que teus olhos reabertos rejeitariam tua enclausurada mortalidade.

Mas hoje, prometo, faço-te justiça
E deixo-te repousar enfim —
Longe da igual morta esperança em mim,
Adormecido em paz devida.
Esta paz, que nunca há de ser maculada por curiosos insólitos,
Garantidamente eterna e altiva, a ti informo:
Sepulto-te, amor meu, com tudo que sobrou de mim próprio.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Purpleness

Fear it not, fear it not,
Glance embraces the spirit of haste, love
So fear it not, fear it not,
as you look for sighs of grace 
in your moment of glaze.

Forget it not, forget it not
to smile towards demise, love:
No more seriousness will endure vacant,
—heaven or hell in your chest—
and rejoice in what's blatant
the sooner you rest.

Then forget me not, Forget-Me-Not.
I shall be awaiting you, as it ever was
Even before I was born