escrito em 03/08/2026
A vida é um exercício de memória, algo que começa antes mesmo de nascermos. Até quando ela permanece, se assim ela é, depois que partimos do mundo físico? A resposta, me parece, está parcialmente em ‘‘Origens’’: não se morre realmente porque a memória fica.
Em uma história conhecida, os Fagundes participaram de um festival em São Borja que exigia dos compartes que, na passagem da Sexta-Feira Santa para o sábado, uma música inteira fosse construída e apresentada. Nico, em um momento típico de seu brilhantismo, teve a ideia basilar para ‘‘Origens’’ e, deste ponto em diante, surgiria, em tempo recorde, a maior música do grupo (em minha singela opinião). Mas nada disso seria possível sem o apoio de músicos de mão-cheia como ele, que estavam a seu lado naquele e em tantos outros momentos.
Não consigo imaginar o impacto que a identidade musical gaúcha teria se não existisse Bagre Fagundes. Ouso pensar que nada seria como foi se não tivesse existido uma parceria entre dois irmãos musicalmente singulares que um dia tocaram uns acordes e saíram de Alegrete para transformar não só sua própria história, mas também a identidade de milhões de gaúchos.
É o tipo de pensamento que se reforça pela lembrança do que se vive, pelo prazer de ter conhecido Bagre pessoalmente em 2023, por exemplo. Foi um impacto imediato: eu gostava de ver como ele se lembrava de tudo ‘‘de ouvido’’ e, no meio daquela roda familiar de voz e violão, cantava em um estado quase que meditativo. Era como se, quando soltava a voz, entrasse em comunhão com o som que ecoava das cordas tocadas por seu filho Paulo em seu estado mais puro. Era um ato essencialmente transcendental. Naquele dia, Bagre me ensinou muitas coisas por meio do simples fato de ser quem era: nada mais era necessário, ele já era um professor sem precisar parar para dar aula.
Agora, no momento de seu ‘‘até logo’’, tudo volta à consciência, e entendo o conjunto de significados de seu legado. É tudo muito mais além de ter sido um músico ímpar, pai de músicos ímpares, irmão de músico ímpar, e de carreira ímpar. É sobre o que vai além deste plano e o que não morre, apesar da partida física. É sobre a memória do que foi e do que fica: aquela coisa que nos torna de fato eternos. Logo, tal como foi escrito em ‘‘Origens’’, eu sei que Bagre não vai morrer, porque dele vai ficar o mundo que construiu, o seu Rio Grande, o seu lar.