domingo, 8 de julho de 2018

Uma Família


Rivaldo chegou ao consultório médico exultante, era a primeira vez em que não se atrasava para uma consulta e seu relógio acusava: meia hora de antecedência. Pegou um ticket de atendimento logo ao entrar, com senha a ser proclamada por um televisor ao centro da sala de espera. Sentou-se e esperou como quem espera por algo efêmero, aproveitando este passageiro tempo de espera para avisar à Maju que chegaria cedo em casa:

- Nêga, tenho consulta às 10. Acabando aqui já vou pra casa, peguei dispensa do trabalho. Não devo demorar.

Uma sutil meia-hora passou-se enquanto Rivaldo empolgava-se, ao ver na TV os benefícios que a ''gordura marrom’’ podia fazer ao ser humano. ‘’Isso sim é um programa de auditório, com noção social’’, pensava consigo. O televisor soltou uma voz mecânica que ressoou: ‘’senha 102, guichê 03’’.

- É a minha! – falou baixinho Rivaldo e dirigiu-se ao tal ‘‘guichê 03’’, mas não sem notar, mesmo que tarde, o quão lotada estava a sala de espera.

- Boa tarde, meu nome é Rivaldo. Tenho consulta com a doutora Ivânia agora às 10.

A recepcionista respondeu-lhe prontamente:

- Carteirinha, identidade e CPF.

Enquanto a silenciosa moça do guichê preenchia o cadastro de Rivaldo sem parar, com uma digitação incessante das teclas de seu teclado, um homem de aparentes 40 anos, com barba por fazer e usando um robe saiu do banheiro. Saudou as recepcionistas:

- Bom dia, gatinhas! Fizeram o café?

Uma delas respondeu:

- Bom dia, senhor Alcides! Sim, tá ali na mesa da copa, na térmica.

Alcides sorriu, deu um rápido pulo na copa, pegou seu café, agarrou um jornal que repousava sobre o guarda-revistas e sentou-se em uma das cadeiras da sala de espera.  Rivaldo fez cara de confusão: ''quem diabos era aquele sujeito para estar usando pijamas num consultório médico?”. Colocando toda a capacidade intelectual sua para funcionar, concluiu que Alcides devia ser o dono da clínica, ou coisa parecida, que trabalhava todos os dias até tarde e evitava a fadiga do tráfego de São Paulo dormindo em seu próprio consultório.

- Senhor Rivaldo, aqui seus documentos –disse a ‘‘silenciosa’’, dirigindo-os em direção a Rivaldo-. Agora é só aguardar.

Rivaldo agradeceu e voltou às cadeiras. Apenas duas mais estavam livres, escolheu sentar-se naquela ao lado de uma senhora de óculos garrafais e ar simpático. Concentrou-se novamente no programa de auditório que passava na TV. Meia-hora passou-se sem que pouco percebesse, e mais meia já com perceptivel incômodo: ‘’Nossa, que demora! Porque será que tá demorando tanto?’’. A senhora ao lado levantou-se e dirigiu-se para frente das cadeiras, onde todos podiam lhe ver:

- Meu povo, já são 11 horas, tá na hora de buscar a merenda.  Quem vai hoje?

Um silêncio momentaneamente rápido pairou no ar até que Alcides falasse:

- Eu só sei que eu não vou, fui anteontem. Acho que tá na hora do Valmir ir, já tem uma semana que ele não vai.

Entre os pacientes ouviu-se um certo murmuro uníssono de concordância: era Valmir. À contragosto, um sujeito moreno, de não mais de 30 anos, levantou-se de uma das cadeiras ao fundo da sala e foi até a frente:

- Beleza, eu vou, tenho respeito às regras. E o dinheiro?

Quase todos na sala levantaram de suas cadeiras, poucos ficaram sentados, com faces tão consternadas e confusas quanto a de Rivaldo. Os levantados abriram suas carteiras e retiraram notas de vinte, cada um, e entregaram-nas a Valmir. Antes que o jovem colocasse todo aquele dinheiro no bolso, Alcides tocou-lhe o ombro:

- Sem demorar, viu. Lembra do que aconteceu com a Ivonete.

O jovem acenou com a cabeça, transpareceu confiança, e saiu pela porta de entrada rapidamente. Todos voltaram a sentar. Rivaldo já começava a se sentir preocupado, o que era aquilo? O que estava acontecendo ali? Alcides, vendo um espaço vago, sentou-se ao seu lado:

- Tu é novo aqui, né? – indagou a Rivaldo.

Sem entender muito bem, respondeu perguntando:

- Como assim?
- Chegou hoje na clínica. Não reconheci teu rosto quando saí do banheiro. Além do mais tu não deu dinheiro pra merenda.

Rivaldo, completamente perdido, fez a única coisa que lhe restava naquele momento:

- Cara, eu não tô entendendo nada.

Alcides esbanjou um sorrisinho picareta, deu leves risadinhas, bateu-lhe no ombro e retrucou:

- As refeições são às 07, 12, e 18. Se dormir demais perde uma delas. Como eu hoj...

Alcides foi interrompido pelo som de um dos consultórios se abrindo. Era a doutor Ricardo quem aparecia:

- Lívia. – gritou o médico. Era a paciente da vez.

Todos viraram seus rostos para Lívia, uma moça magra, loira e jovem. Ela lentamente foi se levantado da cadeira, ainda em choque, em seus olhos começavam a brotar sutis lágrimas. Rapidamente, uma quantidade considerável de pacientes levantou-se e começou a abraçá-la. Palavras de ‘’parabéns’’ apareciam sem parar, beijos no rosto e recados como ‘’sentirei saudades tuas, mas te vejo lá fora, viu?’’. Aplaudida, a jovem entrou no consultório do doutor Ricardo e a porta branca com um número 1 se fechou.

Durante alguns instantes após a saída de Lívia o que mais se viu foram feições de inveja, como se todos ali quisessem estar no lugar dela. Entretanto, um impasse logístico havia surgido para ser solucionado, rompendo a onda de caras invejosas:

- E quem vai ficar com a comida da Lívia? Ela pagou a merenda de hoje. – perguntou um rapaz ao fundo, de cabelos longos.

Um silêncio duvidoso começou a se estabelecer e a massa dirigiu os olhos a Alcides, que tomou a palavra:

- Bom, já que o poder de decisão cabe a mim, mediante decisão coletiva previamente acordada, eu decido que ela vai ficar pro jovem aqui ao meu lado – apontando para Rivaldo- que chegou há poucas horas. Vai ser nosso presente de boas-vindas a ele.

Todos concordaram, a palavra de Alcides deveria ser respeita, sobretudo porque confiavam nele.

- Bom, meu jovem, bem-vindo. Espero que nossa convivência seja frutífera e amável – finalizou Alcides, olhando para Rivaldo-. Enquanto se levantava, Rivaldo agarrou seu braço:
- ‘‘Convivência’’? ‘‘Bem-vindo’’? Que porra tu tá falando, cara? Tem como alguém me explicar o que tá acontecendo, por favor? Já tô aqui há umas três horas e vi uma coisa mais sem-nexo que a outra...

O homem de robe deu um leve sorriso e apresentou um olhar desdenhoso:

- Sério que tu ainda não entendeu?
- Não! – gritou Rivaldo, perdendo já a compostura.
- Calma, jovem; só achei que tua dedução lógica do mundo fosse mais apurada. Vou te explicar.

Ao se sentar novamente ao lado de Rivaldo, Alcides gritou:

- Zé Maria! Raquel!

Da multidão de cadeiras um senhor de pelo menos 70 anos e uma mulher de aparentes 40 foram ao encontro de Alcides.

- Sim, líder Alcides – entoaram.

Novamente, foi ele quem tomou a palavra:

- Tá vendo esses dois aí na tua frente, criança? –perguntou a Rivaldo- Eles estão aqui na clínica há dez anos. São dez anos esperando a consulta deles chegar, dez anos de espera. Zé Maria perdeu o nascimento do primeiro neto porque já tava aqui esperando o doutor Ricardo chamá-lo. O neto, hoje criança, vem aqui visitá-lo de vez em quando. E aí, seu Zé esse ano sai a consulta? – dirigiu-se Alcides ao senhorzinho.

- Fé em Deus que esse ano sai, doutor Alcides. E depois ainda tenho que ver esse joelho aqui na clínica da doutora Berenice quando sair daqui.

Alcides riu:

- E essa aqui, ó – apontando para a mulher-, é a Raquel; chegou à clínica poucas horas do seu Zé Maria, só pra uma consulta de retorno de exame com a doutora Ivânia. Já tá aqui tem dez anos.
- E doze dias – complementou Raquel.
- Verdade, desculpa, Raquel. Fizemos tua festinha de 10 anos semana retrasada...

À esta altura, Rivaldo já estava suando frio:

- Então, meu jovem, esta é nossa realidade, só estamos esperando nossa consulta, todos aqui. Cada um cheio de esperanças e anseios da vida pós-consulta. Cada um enganado pelas palavras ‘’é só aguardar’’ ditas pelas recepcionistas...

Rivaldo, a este ponto completamente chocado, calou-se por alguns segundos até proferir:

- Bom, assim sendo, acho que vou pra casa mesmo. Eu não tô disposto a passar o resto da minha vida esperando uma consulta. Vou em outro lugar...

Assim que Rivaldo levantou-se para seguir até a porta de saída, Alcides agarrou-lhe suavemente pelo braço:

- Olha, meu jovem, tu pode até tentar ir em outro lugar, mas te garanto que vai ser igual a aqui: uma longa espera. Aqui, pelo menos, somos uma família, temos direitos e deveres, acesso a alimentação, e carinho mútuo. Mas não posso te garantir que você vai encontrar isso noutros lugares... Ali mesmo no quinto andar, no consultório da doutora Matilde, fiquei sabendo que já tá imperando a lei marcial, viu... Um ‘‘Talião’’ descarado...

Rivaldo ouviu estas palavras e olhou para o chão: não tinha para onde fugir. Precisava daquela consulta e precisar de uma consulta era enfrentar aquela realidade, em qualquer lugar que fosse. Sorriu cinicamente para Alcides e despencou sobre a cadeira. Foi quando a porta de entrada abriu-se num sopro: era Valmir com as marmitas.

- Cheguei, meu povo! Tá tudo aqui!

Uma fila rapidamente foi formada em direção a Valmir, que entregou as marmitas, uma a uma, a cada um daqueles que haviam dado dinheiro para compra-las. No final, uma restou:

- Chefe – disse Valmir a Alcides- cadê a Lívia?
- Foi atendida, a marmita dela vai ficar pra esse jovem aqui –apontando para Rivaldo-, ele é novo na casa.

Valmir entregou-lhe a marmita em mãos e disse:

- Seja bem-vindo, amigo.

Rivaldo sorriu, olhou para o isopor que embalava a comida, roeu os dentes e pegou o celular. Mandou um recado à Maju:

- Nêga, vou me atrasar. Deixa a janta no micro.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Escola, Matemática e Papelaria

Eu constantemente tenho o pesadelo de que estou de volta à escola, tendo aula de matemática. Quando eu era graduando eles geralmente se tratavam de mim tendo que deixar a faculdade para refazer o ensino médio ou tendo que fazer os dois ao mesmo tempo. São geralmente terror puro. Esta noite eu tive o primeiro sonho de ‘’de volta ao colégio’’ já formado.
Entro no colégio. Saúdo os porteiros, amigos meus de outras épocas. ‘’Daí, Daniel! Veio fazer a matrícula?’’ –eles gritam- e eu simplesmente aceno que sim com a cabeça e com a feição satisfeita. Lembro que é necessário passar na papelaria da escola, como todos os anos, para averiguar a lista de material e comprar todos os seus componentes. A moça do caixa me recebe perguntando quem sou:
- Meu nome é Daniel, fui aluno aqui há uns cinco anos, acabei de me formar e voltei agora pra fazer o ensino médio de novo.
Ela e outras pessoas em volta endossam minha resposta, como se fosse este um movimento vital absolutamente normal, aparentemente muita gente faz isso. Recebo em mãos um papel vindo de um envelope azulado, a tal lista de compras, simbolizando o preço dos materiais como um todo: oito mil reais.
- Deixa eu ver, Dani – diz meu pai às minhas costas, aparecendo absolutamente do nada, sem que eu nem o tenha visto chegando.
Ele pega a lista e começa a analisa-la, mas antes de dizer qualquer palavra eu relevo:
- Calma, pai, tá caro mas não tem problema, eu vou procurar esses livros nos sites de pirataria de livros que a gente usava na UnB... É tranquilo, vou achar tudo. Pode confiar.
Corta a cena. Eu –é claro- sou transportado diretamente pra sala de aula e lá no quadro branco rabiscado se mostrava: aula de matemática. Desespero exala: eu já tinha escapado disso uma vez -para nunca mais voltar-, que caralhos estou fazendo aqui de novo? O professor fala o conteúdo da prova da próxima aula e eu continuo a pensar: ‘’Prova? Pelo amor de Deus, não faço a menor ideia do conteúdo, eu não estudo isso tem uns quatro anos!’’. É aí que o professor, como quase sempre ocorre nesses sonhos, vira-se para mim e fala:
- Vai voltar pra universidade quando, Daniel? – e gargalha: ele sabe que estou condenado a repetir de ano por conta da prova de matemática que não sei o conteúdo, e pior, a passar mais três ou mais anos tendo aula daquilo.
Ao tocar o sinal, saio da sala, reconhecendo ninguém entre os alunos da ‘’nova geração’’ e sendo discernido por muitos como uma espécie de ancião. Duas gurias conversam ao fundo, achando que não estou lhes ouvindo:
- Tá vendo aquele cabeludo ali? Repetiu umas sete vezes...
Ao descer as escadas, esbarro com o coordenador:
- Daniel! Que bom tê-lo de volta! Você vai ver que três anos passam rápido, guerreiro! (Observação: a palavra ‘’guerreiro’’ foi provavelmente uma sutil tripudiada com minha cara por parte de meu subconsciente -a famosa cerejinha no sundae-, já que era assim que o recrutador se dirigia a mim quando me enganou dizendo que teria que servir ao exército).
Puff! Acordo. São e salvo, inteiro, respirando, e sem estar de volta à escola tendo aula de matemática. Meu subconsciente é um baita roteirista tragicômico.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A Irrivalidade

Há muitos anos, na cidade de Nova Santana, pertencente à microrregião gaúcha de Lajeado-Estrela, ocorreu um fenômeno ímpar na história do futebol mundial: a irrivalidade. Desde os primórdios da terceira década do século XX, um pequeno clube local fazia a alegria momentânea dos citadinos, ainda que de natureza amadora. O Recreativo Santanense Gaúcho -ou simplesmente Santanense- basicamente introduziu o futebol na cidade, quando seu criador, Paulo Horan, trouxe a primeira bola de futebol para a urbes, popularizando o futebol na redondeza, e começando, finalmente, a colocar em perigo esportes relevantes na vida local, como a bocha ou as carreiras de carreto.

O Santanense profissionalizou-se nos anos 50, graças aos esforços de seu criador, e logo assumiu o orgulho de ser o primeiro clube profissional da cidade. Horan, que herdou de si mesmo o cargo de presidente-vitalício, estabeleceu a sede do clube no bairro Castilhos, no centro da cidade, e começou a esmolar com a prefeitura alguns centavos para compra de um terreno que viabilizasse a construção de um estádio para o Santanense. De maneiras oblíquas e até hoje mal explicadas, o clube ergueu seu estádio em tempo recorde e içou suas bandeiras em frente à cancha no dia primeiro de agosto de 1952: dali em diante o Santanense mandaria seus jogos no Estádio Gaúcho Paulo Horan, nomeado popularmente como ‘’A Faconaria’’, pois seria lá onde o Santanense passaria o faconaço em seus adversários.

Durante dez anos, o clube, cujo mascote era o Gauderinho, logrou popularidade entre os habitantes de Nova Santana, e seus jogos, ainda que irrelevantes do ponto de vista regional, eram considerados grandes eventos na vida social da cidade. O clube começava a ganhar força para brigar entre os melhores das divisões de acesso do futebol gaúcho quando um evento abalou sua estrutura: a fundação, em 1963, do Esporte Clube Rajado, o segundo clube profissional da cidade. O Rajado fundou-se a dois bairros de distância do Santanense, por um bando de estancieiros desocupados que clamavam que a cidade merecia um clube de maior qualidade. Seu nome era atribuído a fins quase que proféticos, uma vez que seu presidente e membro-fundador, Evaristo Weitz, disse que foi numa noite de bocha que uma rajada de ventos lhe revelou que o Santanense não era clube digno para a cidade. A mídia local logo tratou de propagar a história, atingindo o ápice, pelo jornal Manhã de Santana, de que o próprio Cristo entregara a mensagem a Weitz. Tratou-se, também, de divulgar-se que agora havia uma rivalidade municipal entre Santanense e Rajado e propunha-se o primeiro clássico sa-raja para o mês seguinte, mesmo que nem equipe completa de jogadores o Rajado ainda tivesse.

A reação de Horan foi imprevisível: todos esperavam a aceitação do conflito, mas o que foi feito foi justamente o reverso. O presidente-vitalício divulgou uma nota oficial parabenizando o Rajado por sua formação e dizia que era contra a política de rivalidade ‘’insuflada pelas mídias’’. Ao logo de sua nota, perguntou-se três rotundas e categóricas vezes: ‘’porque clubes da mesma cidade têm a obrigação de serem rivais?’’. Ao final, sentenciou: ‘’Santanense e Rajado são clubes irmãos, são irrivais’’.

A nota foi um furor local. Ninguém conseguia entender muito bem o que passava pela cabeça de Horan, mas o conluio midiático logo decidiu o que era manchete: ‘’Presidente do Santanense ignora a importância de novo rival’’. Na mesma semana, os principais meios de comunicação entrevistavam a Evaristo Weitz e suas afirmações eram sempre iguais: ‘’Horan acha que não temos nem a condição de sermos seus rivais. Pois ele vai ver só’’.

Logo na segunda-feira que se seguiu a tais entrevistas, Weitz conseguiu marcar um amistoso contra o Santanense em frente à prefeitura da cidade, aproveitando-se da boa relação que possuía com o prefeito Amaro Gandini Júnior, filho do finado ex-prefeito Amaro Gandini, a quem Júnior atribuía a responsabilidade, e não a Horan, de ter trazido a primeira bola de futebol para Nova Santana. No domingo consequente seria realizado o primeiro clássico sa-raja e os meios de comunicação começaram a alimentar um clima belicoso antes mesmo do fim da segunda-feira. Contudo, faltava combinar com o Santanense, ou melhor, com Horan. Como era de se esperar, Horan repeliu a conduta de Weitz por meio de nota publicada pelos jornais locais e sacramentou com magnitude: ‘’Se o amistoso não for desmarcado, o Santanense não entra em campo’’.

Não demorou um dia para que o Manhã de Santana publicasse uma matéria a respeito da nota de Horan, cuja natureza o periódico considerava ‘’mais contraditória que o próprio presidente do Santanense’’, uma vez que se lançavam as perguntas: ‘’Como Horan predica a irrivalidade, como ele mesmo diz, e possui um estádio apelidado de ‘’A Faconaria’’? Um clube ‘’irrival’’ como o Santanense não deveria ser, no mínimo,­­ pacifista?’’. Distribuído pelas bancas e casas de Nova Santana, as perguntas do Manhã começaram a ressoar pelas ruas, e o boca-boca dos cidadãos as endossavam cada vez mais. Os torcedores e simpatizantes do Santanense pareciam cada vez mais sem argumentos no debate futebolístico, visto o impacto da manchete, obrigando Horan a soltar mais uma nota, na quarta-feira, explicando-se: ‘’Como é triste ver que se quer fúria ao invés de cooperação. O apelido ‘’A Faconaria’’ não foi inventado por mim, mas admito que meu silêncio o endossou. Porém, o que queriam vocês, então? Que no Rio Grande do Sul um time não remetesse, em seu nascimento, a uma cultura aguerrida e matadoura? Farroupilha? O Santanense não duraria dois segundos! É preciso agradar a direita. De todo modo, sempre me pareceu que o apelido ‘’Faconaria’’­­­­ era uma homenagem aos talentosos produtores de facas da região...’’.

Como era de se esperar, já que um debate jornal versus notas havia se estabelecido, o Manhã de Santana amanheceu na quinta-feira estampando: ‘’Horan, traidor do povo gaúcho’’. Os outros jornais seguiam o mesmo teor, e o Rajado, excepcionalmente, lançou uma nota de repúdio às afirmações de Horan, taxando-o de ‘’vermelho e ególatra de marca maior’’. Ao final, o clube prometia aos seus fãs que não esperassem nada menos do que sangue em campo, ‘’como manda a tradição gaúcha’’. A cidade quase parou para esperar a próxima movimentação de Horan neste debate, só não houve pipoca porque o rio Uruguai não é o Hudson.

Silêncio. Silêncio monumental e absoluto de Horan e do Santanense. A opinião pública, evidentemente, frustrou-se, e, em principal, aqueles que gostam de simplesmente apreciar o circo pegar fogo. Diante da frustração da não-resposta e do silêncio que pairou pelo lado santanense do embate, os jornais começaram a se perguntar, até o dia de domingo, se Horan realmente manteria sua ameaça.

Raiou o dia do amistoso e a cidade exalava empolgação. Bandeirinhas com as cores do Rajado e do Santanense enfeitavam as ruas, pessoas vestidas com estas mesmas cores circulavam pela cidade e, inclusive, na frente da prefeitura um homem fantasiado de vento, mascote do Rajado, alegrava aos transeuntes. Na frente d’A Faconaria, todavia, não se via a mesma emoção: portões totalmente fechados, pouco fluxo de pedestres e nenhum sinal de que houvesse qualquer vida do clube por ali. O horário do amistoso arrastou-se para chegar, mas chegou. O estádio municipal Amaro Gandini estava abarrotado de gente e registrou-se o recorde de lotação, jamais batido até hoje. A prefeitura tratou, inclusive, de ampliar o espaço de arquibancada, instalando estruturas provisórias e removíveis para que mais gente coubesse no estádio. Além disso, trouxe possíveis patrocinadores das cidades do entorno e, diz-se, que até empresários do ramo têxtil enviaram representantes para acompanhar a partida. Aproveitando de sua amizade com o prefeito, Weitz conseguiu com que a prefeitura presenteasse todos os jogadores do Rajado com chuteiras novas e meiões de algodão puro, além de ter recebido, dizem alguns, 20% dos lucros do evento para o seu próprio bolso. A atmosfera estava gigantesca para ser o mais especial dos acontecimentos da história de Nova Santana, mas o Santanense não deu as caras. Horan cumpriu sua promessa, seu clube jamais iria concordar com a cultura de ter um rival sem motivo ou necessidade.

A irrivalidade representou um baque do qual o futebol de Nova Santana nunca se recuperou. Após a recusa do Santanense de entrar em campo, o clube começou a perder popularidade em ritmo alarmante, ninguém queria ser associado a um clube que se recusava a pelear ou, pior, ‘’que tinha medo de jogar’’, como publicou o Manhã de Santana, um dia após o jogo. Isolado financeiramente e em franca derrocada de apoio popular, o Santanense durou apenas mais três anos e fechou suas atividades após ficar em penúltimo lugar na última divisão do futebol gaúcho. Horan vendeu o clube e ‘’A Faconaria’’ a preço de banana para empresários do ramo têxtil, que, por sua vez, fecharam o clube e construíram uma grande indústria de tecidos no lugar do antigo estádio. Evaristo Weitz, aproveitando-se da impopularidade do Santanense após ‘’o clássico que não houve’’, viu o Rajado fazer campanhas históricas nas divisões de acesso e, enquanto o dinheiro da prefeitura entrou, seu clube conseguiu chegar à segunda divisão gaúcha. Mas, em pouco tempo, o Rajado foi à bancarrota, assim como seu antigo ‘’irrival’’, após abruptamente perder o apoio do prefeito Gandini Júnior, sem motivos aparentes, e dos recém-chegados empresários do ramo têxtil. Estes empresários, que, aliás, eram os mesmos que haviam fechado o Santanense, compraram a sede do Rajado em 1969 e lá estabeleceram uma grande loja de camisas e acessórios naturais de sua fábrica. O Rajado, que na prática já havia encerrado suas atividades, oficializou o seu fim um dia depois da inauguração de tal loja e passou a ser um clube amador de iniciativa popular, que periodicamente joga para angariar fundos para obras públicas. A última informação que se sabe a respeito de Evaristo Weitz é de que formou-se em jornalismo e que foi contratado pelo Manhã de Santana logo depois. Ele e seu antigo amigo Amaro Gandini Júnior nunca mais conversaram, e em todas as campanhas eleitorais que o prefeito concorrera à reeleição Weitz fez campanha contra. Entretanto, sua influência política frente ao apoio que Gandini Júnior possuía dos empresários têxteis da cidade era ínfima. O prefeito manteve-se ainda por muitos anos no cargo.

Bom, quanto a Horan, as informações são desencontradas. Alguns dizem que, após fechar o Santanense, permaneceu na cidade até o fim da vida, vivendo a amargura de ver seu projeto de vida como um fracasso. Outros dizem que permaneceu, sim, na cidade, mas que saía cantando sempre vitória pelas ruas, dizendo que o Santanense havia vencido a cultura espoliativa e opressora das forças centrais de que clubes da mesma cidade têm a necessidade de serem rivais. Fontes mais desencontradas dizem, também, que foi embora de Nova Santana, tamanha sua vergonha, e que estabeleceu um investimento num vinhedo de alguns italianos de Rio Grande. Outras, um pouco mais ‘’enfáticas’’, afirmam com seriedade que Horan teve que fugir, sob ameaça de morte, do Rio Grande do Sul, por ser visto como um traidor da ‘’raça gaudéria’’ dentro das quatro-linhas. Alguns dos mesmos que defendem esta versão, acrescentam que Horan se estabelecera na Europa e que seu nome chegou a ser cogitado ao Nobel da Paz, assim que os europeus, estupefatos, souberam de sua história.

Hoje, na memória oficial da cidade, não se menciona o Recreativo Santanense Gaúcho como pioneiro do futebol da cidade, tampouco de que foi, durante alguns anos, símbolo citadino. A versão oficial menciona apenas o Rajado, cuja singela homenagem repousa em formato de placa em frente ao estádio municipal da cidade. Horan, não é nem necessário falar, foi um nome apagado da história de Nova Santana e nos anais oficiais presentes nos arquivos à apenas um nome se atribui a introdução do futebol no município: Amado Gandini. O fato inconteste é que, após o fim da agonia do Rajado, o paradigma do esporte finalmente voltou à sua antiga normalidade centenária: a bocha e as carreiras de carreto voltaram à preferência dos santanenses.

Dorneles Zanoli

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Carta ao Irmão

Caro irmão,

Escrevo-te esta carta diretamente do presídio central de Porto Alegre, mas não se assuste: está tudo bem. Contudo, acredito que lhe deva satisfações, ainda mais por não nos falarmos depois de tanto tempo (culpa minha, claro).

Tudo começou no verão passado. Como você não sabe, eu estava vivendo bem, no centro, estabilizado em meu emprego de programador e sem nada do que reclamar. Você sabe que desde de criança mantive uma certa predileção em acumular livros, muitos deles jamais lidos, pelo simples fato de me dar prazer saber que passava a possuir um volume de conhecimento; ou seja, pelo simples fato de tê-los. Este ímpeto sempre foi devidamente controlado, nunca passou do normal, apesar de nunca ter deixado a proporção de ‘’um livro lido para quatro novos’’. Tudo mudou numa noite de sábado.

Eu tinha um encontro com uma jovem que conheci no Zaffari, uma pessoa bastante agradável. Arrumei-me cedo demais para sair de casa (sabe como sou ansioso) e decidi deitar por uns minutos com intuito de ‘’fazer hora’’. No criado-mudo ao meu lado estava uma revista que havia comprado há pelo menos um ano, deixada ali para ser lida e nunca mais tocada. Fitei-a por um momento e pensei: ‘’Que mal tem? Eu tenho alguns minutos ainda...’’. O que aconteceu depois desestruturou toda minha vida.

O assunto em questão era um pouco intrigante: ‘’Poderia o homem quebrar a costela com um simples espirro? Esta e outras curiosidades perigosas’’. Descobri coisas além-mundo, fatos de uma veracidade replicante e os perigos ocultos de pequenos gestos cotidianos. Em poucos minutos eu era um homem totalmente mudado. Senti um prazer imenso pelo simples fato de ler bobagens; ou seja, pelo simples fato de passar os olhos pelas palavras dispostas em parágrafos. Neste momento, o eu-consumidor assíduo e descompromissado de livros fundiu-se com o eu-leitor-voraz que residia, como um monstro adormecido, dentro de mim: o que apareceu pela frente tornou-se rastro de destruição. Acabei a revista sem me atrasar para o encontro, e tudo se encaixara perfeitamente no cronograma para noite: agora era só pegar o casaco e encontrá-la no bar. Todavia, o monstro já estava desperto; e tinha fome. Olhei, ainda deitado, um volume maltratado e empoeirado de ‘’Ulisses’’ em minha prateleira, que eu comprara há cinco anos e que sempre dizia à amigos que o havia lido, afirmativa tal, também, sempre acompanhado por um ‘’genial’’. ‘’Pura merda’’, pensava comigo, ‘’não li nem o prefácio’’. Os olhos seguiam a mirar o volume e o monstro languido e demoníaco gritava e ressoava em meu interior: ‘’Maaaaais! Maaais!!!’’. Não pude me controlar.

Já haviam se passado pelo menos três horas da hora do encontro e eu ainda me encontrava lá: absorto e encravado em minha cama. Meus olhos vidrados e intempéries não desgrudavam da narrativa de Joyce e ensurdeciam os meus ouvidos enquanto o celular tocava sem parar -provavelmente ela, tentando saber o que havia acontecido-. Não dormi naquela noite, descansei apenas no raiar do dia, mas apenas o suficiente para recuperar-me e continuar a leitura. Naquele mesmo dia acabei o livro, mas isto não calava o monstro interior que ainda urrava por mais alimento. Nos meses que se passaram depois deste fato, tudo mudou: perdi o contato com os amigos, com meus familiares, perdi a disposição para conhecer mulheres. Não mais me preocupava com estas frivolidades e tinha apenas uma meta: comprar e ler livros. Obviamente um estilo de vida desses custa um preço e me amontoei em dívidas, uma vez que alimento ou contas de energia não são tão importantes quanto conhecimento. Você já há de perceber que poucas semanas depois da ‘’Epifania de Joyce’’, como chamei aquela noite, fui demitido de meu emprego: acusaram-me de incompetência e mente dispersa (o que é verdade, pois no trabalho eu só pensava na sintaxe e semântica de qualquer outra coisa que estivesse lendo no momento). De maneira geral, quando já estava sem luz, água, muitos móveis e condições para comprar novos livros, eu comecei a ler todos os outros volumes acumulados em minha casa e ainda não lidos. Em um mês acabei com todos, mas o monstro interior, esta quimera lasciva e desoladora, não estava por satisfeita: queria mais, sempre mais.

Inibida a outra face de minha patologia, a de compra exacerbada e desordenada, pela falta absoluta falta de dinheiro, os gritos internos de minha psiqué obsessiva se tornavam cada vez mais espalhafatosos e eu precisava encontrar alguma alternativa para saciar-me: não existiam outras prioridades em minhas vidas além dos livros. Chegou um momento, cuja a memória falha e desesperada ofusca-o, que decidi chegar ao extremo: infringir a lei e os mandamentos bíblicos. Foi como cometer um triplo homicídio: matar ao Estado, à cristandade e a mim mesmo; mas, naquele momento, eu não estava mais para brincadeira.

Numa madrugada de sábado (curiosamente o mesmo dia da ‘’Epifania de Joyce’’), pus em ação meu primeiro roubo. O alvo era uma simples, mas portentosa, livraria a três quarteirões, cujos exemplares mais notáveis eram exibidos dia e noite por uma vitrine orgulhosa. Eu mesmo gastei muito de minhas finanças lá antes de perceber que sebos seriam sempre mais baratos e quanto mais dinheiro economizado, mais livros. Não consigo me lembrar muito bem dos detalhes do plano, minha consciência e sensatez já estavam ofuscadas pelo apetite brutal de um guepardo em direção a uma gorda gazela, mas me lembro que tangia sobre entrar rápido, sair rápido e chegar em casa rápido.
Por mais improvável que lhe pareça, por mais surreais que os relatos possam ser até agora, lhe digo, irmão: naquela noite não fui o único assaltante da livraria. Na verdade, cheguei atrasado. Assim que adentrei o interior da loja, deparei-me com dois tipos encapuzados e mascarados, retirando qualquer cédula que houvesse no caixa e indo em direção ao cofre da loja. Ao me verem, apontaram-me suas armas:

- Quem é tu, caralho? – gritou-me um deles (respeitando, claro, os devidos coloquialismos).

Assustado, gritei:

- Calma! Calma, gente! Eu também tô aqui pra roubar!
- Quê?!? -gritou-me o mesmo que me interpelara- Roubar? Pode esquecer, mano; a gente chegou antes! A gente se planejou, saímos de casa cedo, evitamos a free-way, que sempre engarrafa (mesmo em horários de pouco movimento); desativamos todas as câmeras e o alarme, e agora tu me vem...
- Não, não! – interrompi-o- não vim roubar dinheiro, não me importo com dinheiro! Se quiserem, podem levar tudo. Vim aqui pra roubar livros.
- Livros? Desde quando alguém rouba livros, cara?
- Então...

Expliquei-lhes toda a situação, desde a tal epifania. Eles me pareceram, de início, extremamente intrigados, de início chegaram a pensar que estava zombando de suas caras. Conforme minha narrativa prosseguiu, a desconfiança transformou-se em absoluto interesse, mas não mais pela minha jornada, e sim pelo mundo dos livros. Não sei como, lhes despertei alguma paixão obscura pela leitura. Mostrei-lhes um exemplar de Marcel Proust, dissertei sobre a importância de sua obra face a cultura francesa de sua época, sua ressonância na posteridade, indiquei-lhes obras. Por conseguinte, o que era para ser uma simples explicação do porque eu estava ali a roubar livros transformou-se numa aula amadora de um apaixonado pela literatura. Depois de uma hora de conversa, entreguei um exemplar de ‘’Adeus às Armas’’ a cada um, atendendo a pedidos. Não mais queriam roubar a loja, disseram-me, queriam apenas ir para casa ler. Senti-me bem comigo mesmo, ‘’evitei um roubo’’, pensei. Perguntaram-me se gostaria de uma carona, mas rejeitei-a, ainda tinha trabalho a ser feito. Despediram-se com um cordial abraço e com agradecimentos de ter-lhes ‘’despertado à vida’’, e respondi, simplesmente, que este era ‘’o poder da leitura’’. Assim que me virei, vi-me cercado por uma imensidão de deleite: prateleiras e prateleiras de volumes virgens, displicentes e pecaminosos, brilhando diante de mim e exalando o inconfundível e redentor cheiro das páginas novas... Era bom demais para ser verdade, e seria tudo para mim. Bom, seria. Pois neste momento tomei uma porretada na cabeça e perdi a consciência.

Fui acordado, já de manhã, pelo dono da livraria e por dois policiais. Ao meu lado pairava minha bolsa lotada de dinheiro. Esperei dizerem alguma coisa:

- O senhor está preso por invasão a propriedade privada e tentativa de roubo. – disseram os policiais.
- Como assim? Eu não ia roubar nenhum dinheiro!
- Ia roubar o que, então?
- Só os livros.

Todos caíram na gargalhada, inclusive o dono da livraria, que pela primeira vez mudou suas feições de ódio.

- Tá bom – concordou o policial, ainda em meio a risadas- e eu sou o papai-noel. Ninguém rouba livro, rapaz. As pessoas roubam coisas de valor.

Mesmo que tenham os ladrões tenham armado para mim, esbocei um sorriso satisfeito, antes de sair escoltado do recinto, ao dar uma última olhadela para a prateleira de que tirei os livros que lhes presenteei: eles, realmente, os levaram para casa. Fui levado para a delegacia e aguardo julgamento na prisão. Meu advogado me disse que este ainda deve demorar, e que posso pegar de um a dois anos de pena. Já estou aqui há sete longos e rastejantes meses.

Gostaria de lhe afirmar, caro irmão, que na prisão minha condição finalmente foi controlada, mas não é este o caso. O monstro não tira férias e não é extirpado se encarcerado. Juro que dividir a cela com detentos cuja periculosidade é maior que a América Latina não é tão ruim frente ao fato de não ter nada para ler. E ninguém acredita que fui preso por tentar roubar livros, ainda por cima. Durante os dois primeiros meses eu até tive a regalia de ler o jornal a cada dois dias, mas depois que o carcereiro do turno da manhã, Walter, descobriu que eu estava extraviando todas as partes dos classificados e as escondendo em um vão acidentado da parede, este privilégio me foi cortado. Depois disso, foram duras semanas sem nada para ler, onde pela primeira vez o monstro chegou a sair de meu interior e a mostrar sua face horrenda para o mundo dos homens: em um ato de puro desespero, enquanto os outros presos dormiam, comecei a tentar arrancar as etiquetas de suas camisetas, mas não tive sucesso. Logo na primeira, ao tentar puxá-la, acordei um detento que, assustado e principiando um estado de cólera, desferiu-me um soco na face. Por sorte minha, o carcereiro noturno, Weber, foi rápido o suficiente para me salvar de um linchamento. Fui mandado para solitária como medida de segurança: entrei para o rol dos mais perigosos do presídio central tentando roubar etiquetas de blusas de algodão.

Você já pode imaginar que as coisas pioraram na solitária, se é que isto ainda podia ser possível. Depois de esgotadas todas as tentativas de ler quaisquer coisas, inclusive a de arranhar palavras sortidas na parede para que eu mesmo as lesse repetidamente, eu já me encontrava pronto para a perda total de minha mente. Foi quando a cristandade, a própria entidade cujo papel eu renegara e traíra quando decidi roubar a livraria, estendeu-me a mão, com um perdão cortês. Uma jovem freira chamada Alzira deu-me uma Bíblia de presente, como parte de um projeto comunitário que seu convento fazia neste presídio. Nenhum carcereiro atreveu-se a negar que eu ficasse com a Bíblia, com medo de represálias divinas.

Em três dias eu a li inteira. Em mais três a reli. Já estava para acabar a segunda releitura quando freira Alzira voltou à prisão, em sua visita semanal aos detentos catequizados. Falei-lhe que já havia terminado de ler a Bíblia:

- Você teria algum outro livro para me emprestar? Algo com uma pegada um pouco mais realista?

Ela não gostou de minhas palavras, nem um pouco. Acusou-me de não procurar ajuda e a usar da bondade alheia para bel-prazer. Além disso, disse que usei do sagrado para pecar. Ela nunca mais veio me visitar depois disso e, ainda pior, levou consigo minha Bíblia. Voltei à estaca-zero e no momento em que lhe escrevo esta carta minha mente já começa novamente a degenerar. Não consegui manter o monstro silenciado por muito tempo e, antes mesmo de endereçar este escrito a você, saiba que o reli doze vezes, apenas como um placebo à minha necessidade. Mas, como parte de meu direito de detento, peço-lhe que me faça uma visita, caso seja possível. Apesar de tudo isto, saiba que ainda sou o mesmo de sempre, apenas um pouco mais instruído. Perdoe minhas falhas, amado irmão, e saiba que lhe espero ansiosamente. E, se não for muito incômodo, teria como me trazer algumas revistas?

Com carinho,

Ateneu.

domingo, 15 de outubro de 2017

Abaixo a Clonagem

Era alguma tarde de 2003 quando um telejornal anunciou a morte do primeiro mamífero clonado da história: a ovelha Dolly. Até então, eu não sabia que existia uma ovelha clonada no mundo e também nunca tinha parado para pensar se a ciência já estava tão avançada, mas assisti perplexo ao noticiário. Em poucos segundos, a faísca despertada pela perplexidade resultou num grande incêndio de espanto dentro da minha mente: daqui a pouco serei eu. Deixei o recinto para digerir a informação; na linha lógica dos fatos derivados da notícia tudo se encaixava: os seres humanos provavelmente já estão prestes a clonarem a si próprios e em algum momento alguém vai bater na minha porta dizendo que vai me clonar também. ‘’Alguém deveria impedir isso’’, pensava comigo, ‘’ Definitivamente precisamos de limites’’. Fui me encontrar com um dos meus amigos na quadra de meu condomínio, após chamá-lo pelo interfone. Acionei, logicamente, o código ‘‘jambo em chamas’’, utilizado por nós para escaparmos dos serviços de inteligência, e que significava, mais ou menos, ‘’encontro de absoluta urgência’’. Fomos correndo para a quadra:

- Você acabou de ver o que apareceu no jornal? – perguntei para ele
- O quê? A história da ovelha? Vi sim.
- E você não tá preocupado? – retruquei.
- Bom, na verdade, eu não parei pra pensar nisso ainda. Só consigo pensar que se eu tivesse um clone eu iria fazê-lo ir pra escola no meu lugar.
- Bem pensado... Quer dizer, não! Presta atenção! Imagina se seus pais te trocam por um clone melhorado de você mesmo. Imagina se daqui uns anos os filmes de 007 forem, na verdade, relatos históricos de guerras entre países colonizados com trabalho de clones. Clones escravizados para enriquecer urânio! (Eu havia acabado de ver em um filme que ‘’enriquecer urânio’’ era ‘’do mal’’, mas não tinha a menor ideia do que significava).
- É, acho que daí já é demais mesmo. Mas fica tranquilo, perguntei pro meu pai e ele me disse que provavelmente os Estados Unidos já clonaram muita gente por aí, a gente só não sabe ainda. Então talvez não seja algo tão fora do comum...
- Será?
- Ele que me disse. Meu irmão, inclusive, colocou a ideia na minha cabeça: ‘’como assim você nunca desconfiou daqueles lugares no mundo onde as pessoas são muito parecidas fisicamente, quase iguais?’’
- Droga. – respondi, derrotado.
- É, e foi bem debaixo dos nossos narizes...

Voltamos para casa, ninguém mais estava a fim de brincadeira naquela tarde. Deitei-me na cama pensando no que eu poderia fazer para evitar que eu fosse clonado. Poucos minutos depois e ’’ bingo!’’.  Peguei papel e caneta e comecei a escrever uma declaração nomeada ‘’Abaixo a Clonagem’’, de fins absolutamente jurídicos, que não permitia que nenhum clone meu fosse gerado.  Ao final, eu deveria assinar, mas justo neste momento comecei a hesitar: ‘’pensando bem, a ideia de um clone ir pra escola no meu lugar não é de um todo ruim... Mas como eu viveria com o clone assim? Já sei, eu poderia congelá-lo durante o dia e descongelá-lo quando fosse hora de ir pra escola... Brilhante!’’ (obviamente eu não pensava a fundo na logística). ‘’Aliás, eu poderia também pedir para clonarem os melhores jogadores do mundo e depois escalá-los no Grêmio, e daí, quem sabe, não perderíamos tanto... ’’. As possíveis seduções foram muitas e neste momento me vi numa encruzilhada moral.

Depois de muito pensar, decidi apostar no correto: assinei na declaração um enfático ‘’Daniel Lorenzo ‘’Gemelle’’ Scandolara’’. O documento se perdeu na posterioridade e, até onde eu sei, ninguém mais foi clonado. No final das contas não é preciso clonar para que as pessoas ajam de maneira uniforme, o que eu achava que fosse o intuito principal da clonagem: bastam ideias.

sábado, 19 de agosto de 2017

BB

Metrô do Distrito Federal, manhã. O vagão encosta na Estação Shopping. As portas se abrem e um grupo de cinco ou seis homens adentram-o, todos com camisas negras e um peculiar crachá no lado esquerdo do peito. Nada muito a se suspeitar. Jogam conversa fora, soltam risadas de vídeos de Whatsapp e brincam um com os outros. 
D., um absoluto desconhecido jovem, que estava por perto, acompanha tudo com o olhar. Sua atenção parece se voltar especialmente para os crachás: prateados, laminados, brilhantes e com os dizeres "Profissão: BB; Treinador: Jesus Cristo". "Peculiar", pensa D., "será que são de alguma igreja?". Contudo, "papos religiosos" não se ouvem, nem mesmo um salmozinho, nada. A curiosidade se apodera do absoluto desconhecido, que se aproxima de um dos "crachazados":
- Com licença, amigo, vocês são de alguma igreja?
- Não, fera. Porquê? - responde o interpelado -que, por fins artísticos, chamaremos de Mário-
- Nada não, só fiquei curioso porque tá escrito "treinador: Jesus Cristo" no seu crachá. Achei que vocês fossem, por isso, de alguma igreja.
- Não, não, fera. A gente é body builder, sacou? Por isso o "BB"; e nosso maior treinador é Jesus. - responde Mário, delicadamente.
- Ah, entendi...
D. se despede do -porque não- novo amigo. Acha tudo aquilo bastante peculiar, provavelmente um novo mercado de academias que unam a religião ao exercício físico. "O capitalismo realmente sabe reinventar tendências", pensa D. 
Contudo, não é o capitalismo que não lhe sai da cabeça, é imagem de Jesus sendo um personal trainer: "Imagina só: Jesus lá no céu, em seu escritório, cuidando de toda a papelada referente a crises humanitárias e ecológicas, super ocupado, e parando tudo pra descer à Terra e orientar o Mário em seu treino... Como seria isso?", se contesta o jovem desconhecido. "Não sei", responde D. para si mesmo, "eu nunca tive um personal trainer só pra mim".

domingo, 16 de julho de 2017

O Gremismo e a Superstição

Eu não me lembro de ter nascido, muito menos nascido tendo um time de futebol. A lembrança mais antiga que tenho, revirando meu enfileirado arquivo memorial, deve ser o dia em que fizeram o pré-natal do meu primo. Em segundo lugar, provavelmente está o dia da final da Copa do Mundo de 2002, copa tal que, diga-se de passagem, Papa Scolari ganhou sozinho. Este deve ter sido o primeiro e último dia em que me vesti totalmente de verde e amarelo. Peculiarmente -sem propósito meu-, uma das minhas primeiras recordações envolveu futebol, talvez sendo um presságio do que estaria por vir: devoção ao esporte. Contudo, lembre-se: ser devoto não significa ter jeito para a coisa, meu negócio sempre foi mais a teoretika. A práxis a gente deixava para aqueles que desde os três já faziam dez embaixadinhas.

Ironicamente, mesmo o futebol estando tão antigamente conectado a mim, eu só fui despertar para o esporte alguns anos depois, em meados de 2006 (ano amargo), apenas porque foi esta a época que despertou meu clubismo. Até aquele ano, eu dizia que era Grêmio apenas porque sabia que meu pai e irmão também eram, mas tanto fazia, não era importante se o Grêmio seria rebaixado ou não, importante mesmo era não ser eliminado na simulação que fazíamos de Big Brother Brasil entre as crianças de meu condomínio. E, cá entre nós, melhor não ter acompanhado mesmo, aqueles foram anos tão horripilantes para gremistas que nem Stephen King conseguiria fazer melhor (ou pior). A única coisa que me marcou do Grêmio, nestes anos de ‘’tanto fez, tanto faz’’, foi uma palavra: Tavarelli. Não tem como lembrar desse nome sem ter raiva ou desgosto, ou tristeza, ou choro, ou tudo misturado. Tavarelli era a personificação perfeita do gol, do adversário.  Se o chute era no alto –disso também me lembro-, podia esquecer: era gol no Grêmio.

Mas até 2006 as coisas passaram rapidamente e perdi a oportunidade, diga-se de passagem, de virar a casaca, mesmo sem ter realmente a vestido, e me tornar colorado. Meu tio, vermelho doente, até hoje tenta entender onde errou, o que faltou para fazer minha conversão, já intromissão alvirrubra esteve arquitetada para acontecer no seio da nossa casa tricolor. Mas não aconteceu. E não foi por falta de tentativa: todo domingo o interfone tocava:

- Dani, vem aqui em casa daqui a pouco assistir o jogo do Inter – convidava meu tio, tramando o bote.

Talvez, durante algum tempo, ter virado colorado naquela época não teria sido mal negócio, já pensei comigo. Afinal, não é em toda vida que se vê seu time perder para um time chamado Mazembe, o que é algo digno de honraria. Porém, meu caminho foi trilhado perseguindo o time do Tavarelli, o time de Rudneis, Cocitos e, pasmem, Baloys. Vai entender.

Este time que me despertou ao futebol também me despertou para outro fator que anda junto comigo quando assisto a um jogo: superstição.  As estatísticas mostram que nos últimos 10 ou 15 anos é impossível ser gremista sem ser supersticioso, não há o que contrariar. Talvez isto traga consigo a assertiva consagradora: os times têm sido tão ruins que só com forças ocultas e superstições para dar tentar dar um jeito. Pode até ser, mas às vezes é bom ser supersticioso, não é preciso nem acreditar, só agir por hábito e deixar a responsabilidade para o Universo. Minha superstição a respeito do Grêmio deve ter começado em algum período em que o time capengava para conquistar pontos fáceis, e, nos jogos importantes, não tinha como não mandar uma sorte supersticiosa, até porque sabíamos que nossos atletas não dariam conta:

- Daniel, o que você tá fazendo com esse casaco? Tá fazendo trinta graus!
- Pára, cara, já te disse que foi pelo casaco que o Grêmio fez o 1x0 e a gente precisa ganhar essa. Se eu tirar, com certeza, vai dar merda.

Aquele casaco deu certo por dois jogos. No segundo (uma derrota), o aposentei, não era bom o suficiente. Disputa de pênaltis com participação do Grêmio a gente já sabia que a chance de derrota sempre era estimada em torno de 70%, tem gente que presenciou mais estrelas-cadentes que vitórias do Grêmio em pênaltis. Sendo assim, a reza tinha que ser da braba: promessas de andar até o interior; dedos cruzados, e seja lá mais o que na hora parecesse dar sorte. Às vezes dava certo, mas na maioria das vezes não tinha como combater: alguns batedores faziam aumentar as probabilidades para 90%.

Talvez lhe pareça, amigo leitor, que eu já fui um supersticioso demais exagerado, mas acredite: se tratando do Grêmio, tinha gente muito pior. No dia do segundo jogo da final da Copa do Brasil do ano passado eu conheci o que realmente era fazer de tudo para tentar dar sorte ao Grêmio. Eram 15 anos sem títulos importantes e parecia que aquele dia seria o dia da quebra da maldição, já que o Grêmio havia ganhado o primeiro jogo fora de casa. Mas, se tratando de Grêmio, e levando em conta todo este sofrimento ao longo destes anos, não se podia dar bobeira. Um amigo nosso, também gremista, nos revelou naquele dia:

- Cara, nessa semana da final eu fiz todos os tipos de mandingas pra dar sorte ao Grêmio.

E prosseguiu:

- Hoje tô usando minha camisa e boné da sorte do Grêmio. Semana passada, indo ao trabalho, ultrapassei um carro que tinha uma placa que começava com ‘’BMG’’, que é patrocinador do Galo. ‘’Aqui não’’, eu disse. Depois, eu vi outro carro, noutro dia, com o patrocínio da Havan (que tá patrocinando o Grêmio nessa final) e mandei um salve ‘’Aê Havan!’’. Segui andando perto desse carro durante todo o trajeto, pra garantir. Acho que talvez tenha sido um sinal de sorte ao Grêmio.

Acredito que naquela final cada gremista mandou um pouquinho de sorte com as diversas ferramentas que conseguiu acumular. Deu certo e a urucubaca dos 15 anos acabou, mas ainda não se pode ter certeza quanto à maldição. Acabando ela ou não, o certo é que as mandingas e superstições irão continuar por algum tempo, sabe, só para garantir. Quem aprendeu a torcer escorado nas maracutaias do Universo precisa de um tempo para se readaptar, questão de logística, claro. Enquanto isso, a camisa da sorte continua repousante no armário, como uma fiel soldada acumulando poder, e apenas esperando o dia em que será, novamente, convocada.