quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Lentium

Meu telescópio de vidas anda quebrado.

Quebrou-se sem cerimônia, sem despedidas: espatifou-se diante do bater do vento.
Recusei-me a colher-lhe os cacos, fiz de uma lupa meu novo olho.
Examinei cada movimento, cada ensejo ou desejo de expressão, cada olho dirigido ou perdido.
Os rostos expandidos nada mostram além daquilo indesejado pela expectativa.
Os rostos expandidos não mostram a nós mesmos, são desvios de uma encruzilhada embaçada - o telescópio fora uma mentira: dos cacos percebi que nem por um dia ele intentou mostrar-me o que eu via.

Escancarou-se ao bobo a verdade da côrte: anos esmerilharam-se junto ao olhar despercebido da ironia de que ali nada se estava a ver - a a luz descerimoniosa, refletida fundo pelas lentes insípidas, em um majestoso penetrar das córneas minhas, fez-me padecer da cegueira dos que vêem.
Escancarou-se ao bobo a verdade da côrte: as lentes são derrotas aceitas daquilo que não acontece - e o eu, o paraíso da guerra.

Aqueles que teimam em não ter a paz consigo jamais acharão a paz no outro, ainda que a guerra do existir em si aparente jamais ter existido.
A paz duradoura é filha única da alma daquele que ousa amar-se e que, ao amar-se, recebe em mãos a vitória da vida humana em terra: o amor do outro.

domingo, 15 de novembro de 2020

Tilintar

Entre tudo que há
E não há,
Há tu.

Em meio às trelas ditas pelo reflexo da íris,
No fim da turbulência que é a marola,
O bastião imperecível responde por teu nome.
Ainda que surdo, ouço-o, de novo e  de novo:
Se em meio ao silêncio do não-dito,
Tivesse algo de surgir para tornar o perfeito mais-que-perfeito,
Seria a tua palavra - pelo abraço das letras, a casa eterna de toda a graça.
Ouço-o, ouço-o: teu nome é o eco tilintar do canto canário,
O milagre do nascer,
O sorriso após a dor.

Hás feito de meu ouvido os olhos da vista e os olhos da alma,
Pois em tudo o que há,
E não há,
Há tu.  

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Poemas Perdidos (pt.1)

''Jamil Pardal'' (07/10/2016)

No cantar da noite pálida esgueirada,
Meu pardal amigo se aconchega
Com o ato final da lua em sua calada,
O vento vazio do sul se aprochega.
E diz: "acorda, amigo! Levanta logo que faz-se dia! 
Lembra-te que houve tempo em que sem aviso teu olho se abria!"
Assim que acorda o pardal amigo,
Logo vem pedir de meu coração os retalhos
E com sorriso confesso que dou-lhe,
De bom grado.
Pois, ora, não nasci completo,
E mesmo que aguente os golpes de ferro,
Vim desnudo, vim varrido,
Perdido,
mas com sangue, altivo.
Diante do bater do martelo chamado destino,
Recuso-me a esmorecer,
E faço do estrondo deste em meu corpo
Meu mais simples florescer.
Por isso, voa, amigo pardal! Voa longe!
Que tuas penas resplandeçam no infinito!
E que o sol sem medo aqueça
Este coração meu que com cuidado carregas.
Espero-te sempre, pardal, sempre
não titubeio e nem me impaciento,
Pois prefiro que meu coração voe,
Carregado por pássaros a barlavento,
A não ser quem sou
A não amar quem amou.
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''Carqueja'' (16/10/2016)
 
Tu és para mim como chá de carqueja,
Uma sonata amarga e forçada,
Em que meu ser adentra e já fraqueja
Com uma só palavra
 
Tomo-te porque fazes bem
-Pelo menos é o que dizem-
Atraio-me por ti porque és forte,
Porque complementas um quadro repintado
Que sem ti é só mais um falso recorte.
 
Os goles de teu chá são cada vez mais etéreos
E resignar-me a sentir o calor de tua temperatura
É abraçar um presente inócuo,
sem esmero.
 
Cada palavra tua é um pingar duma gota de teu chá, em minha boca
Cada dicção tua solta,
É um grito ecoante de meu coração,
para que te absorvas.
Sou apaixonado de começo só pelo jeito que falas, 
pelo jeito que as palavras soam em teus lábios.
O resto é apenas resto!
 
Mas na noite, teu gosto de carqueja ressoando me relembra
Que de nada adianta a palavra quando não há intuito,
quando não alpendra.
 
Pois então,
benditos sejam os que demonstram!
-Como? Onde? Não importa!-
Seja com palavras, seja com atenção!
Seja com gestos, seja com devoção!
Benditos os que não me façam afogar-me
Em um mar de carqueja
e podridão. 
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 ''O Sol também se Levanta''  (06/02/2017)
 
Levanta-te, Sol! Levanta-te!
Abençoe toda a solidão
Que o mundo abriga, 
Com uma quente mansidão 
 
Ouça meus gritos, Sol, ouça-os! 
Eles já foram mais altos, sei 
Já melhor ecoaram nos porões do universo, não? 
É que já cansei de gritar, irmão, 
Estou farto do próprio falar
 
Mas não te iludas, não te oprimas:
 jamais hei de te abandonar 
 A solidão a ti destinada, meu confidente, mande-a para o inferno! 
E ouça-me!
 
A solidão, deixai-a a mim: esta é apenas minha e me recuso a partilhar, 
Teus raios lindos não merecem tais chagas,
 já que tua luz a vida pura encharca
 ordeno-te: faça-te outra morada!
 
Contudo, imploro, irmão Sol, ainda assim, ilumina-me, não desista! 
Cá dentro ainda deve haver lugar a brilhar
É que este sou eu:
Uma imensidão lotada de vazio e quadros tortos!
Mas que não são, nada mais,
Nada menos
Que a janela dos olhos
De nossa tão frondosa mãe, 
Existência.

domingo, 2 de setembro de 2018

Lobisomem


Eu tinha poucas certezas quando era criança. Das poucas, havia uma que me incomodava e se destacava mais: assim que completasse 13 anos, eu viraria um lobisomem.

Tudo começou numa aula da escola, ensino fundamental, lá pelos meus 10 anos de idade. A didática era simples e o assunto mais direto ainda: exposições individuais sobre personagens do folclore brasileiro. O ritmo corria normal, sem grandes surpresas: curupira, mula-sem-cabeça, saci-pererê... Nada muito chocante ou tangível para o mundo ‘‘real’’. Até que um dos alunos da minha classe disse da maneira mais possante, ocre e ferrenha que podia: ‘’O Lo-bi-so-mem’’. Aquilo prendeu minha atenção, o assunto era mais sério, não era anedotinha ou canto de ciranda. Era Lo-bi-so-mem.

Eu conhecia o que era um lobisomem, já tinha visto na TV ou em algum lugar. O bicho era feroz, impiedoso, perigoso e feio, e geralmente rugia com a boca ensanguentada pelo sangue de algum sujeito desafortunado. As transformações da forma humana para a de lobo eram mais feias ainda, o gore corria solto e deixava bem claro uma coisa: em noite de lua-cheia, melhor ficar em casa. Mas eu sabia: enquanto eu evitasse ser mordido por um e não fosse o oitavo filho de um casal que tinha tido sete meninas antes de mim eu estava seguro.  Foi assim até ouvir a apresentação sobre lobisomem na quarta série. Meu companheiro de turma foi explícito: o ‘‘lobo’’, o ‘’bicho’’ poderia estar em qualquer lugar e ser qualquer um, e o aniversário de 13 anos de idade seria a prova de fogo para se saber quem seria ou não um futuro lobisomem. O folclore havia sofrido uma atualização, é claro; já estávamos no século XXI.

Depois daquela aula, voltei para casa convencido de que eu era um dos predestinados a viver como lobo nas noites de lua-cheia, e já era bom ir reservando-as, aparentemente. Mas acontece que eu não queria ser um lobisomem, eu não queria ter uma vida dupla peluda e tampouco ser um ‘‘amaldiçoado’’, por isso pesquisei sobre como quebrar a maldição, sobre como me livrar do karma. Infelizmente, o folclore é implacável –ou era- nesta parte, não se pode ‘‘desvirar’’ um lobisomem, a única saída é um levar uma estacada de prata no coração e dar bye-bye para a vida (balas de prata também são aceitas; sabe, para dar aquela forcinha para a indústria armamentista). Até pesquisei ‘‘formas menos violentas de se desvirar um lobisomem’’: nada.

Daí em diante foi só esperar os 13 anos chegarem, 36 meses de longa espera. Eles chegaram e aparentemente não me tornei um lobisomem na primeira noite de lua-cheia seguinte à data do meu aniversário. Nem na seguinte da seguinte, nem com 14 anos, nem com 15. É verdade que tive minhas dúvidas e desconfianças, os lobisomens não lembram das noites em que viraram lobisomens, então tentava ter minhas garantias: de vez em quando, quando alguém me pedia para fazer alguma coisa ao ar livre durante a noite eu perguntava despretensiosamente:

- Você reparou se hoje é lua-cheia?

Depois dos 15 anos de idade eu comecei realmente a prestar atenção nas aulas de ciências e percebi que a transformação de um homem em lobo é biologicamente impossível (não me digam o contrário, hein!) e ignorei meu passado de lobisomem; digo, de potencial lobisomem. Na verdade, lá por volta dos 17 e 18 eu comecei cada vez mais a procurar a lua-cheia quando era noite dela aparecer, na esperança de virar mesmo um lobisomem e ter, talvez, uma vida noturna mais ativa. Hoje, quando a vejo, vez ou outra, a cumprimento como uma velha amiga, com parte de mim ainda olhando-a só de ladinho –para não dar margem para o azar- e com outra bem atenta, só à espera, urgindo... À espera do primeiro uivo da noite.

domingo, 8 de julho de 2018

Uma Família


Rivaldo chegou ao consultório médico exultante, era a primeira vez em que não se atrasava para uma consulta e seu relógio acusava: meia hora de antecedência. Pegou um ticket de atendimento logo ao entrar, com senha a ser proclamada por um televisor ao centro da sala de espera. Sentou-se e esperou como quem espera por algo efêmero, aproveitando este passageiro tempo de espera para avisar à Maju que chegaria cedo em casa:

- Nêga, tenho consulta às 10. Acabando aqui já vou pra casa, peguei dispensa do trabalho. Não devo demorar.

Uma sutil meia-hora passou-se enquanto Rivaldo empolgava-se, ao ver na TV os benefícios que a ''gordura marrom’’ podia fazer ao ser humano. ‘’Isso sim é um programa de auditório, com noção social’’, pensava consigo. O televisor soltou uma voz mecânica que ressoou: ‘’senha 102, guichê 03’’.

- É a minha! – falou baixinho Rivaldo e dirigiu-se ao tal ‘‘guichê 03’’, mas não sem notar, mesmo que tarde, o quão lotada estava a sala de espera.

- Boa tarde, meu nome é Rivaldo. Tenho consulta com a doutora Ivânia agora às 10.

A recepcionista respondeu-lhe prontamente:

- Carteirinha, identidade e CPF.

Enquanto a silenciosa moça do guichê preenchia o cadastro de Rivaldo sem parar, com uma digitação incessante das teclas de seu teclado, um homem de aparentes 40 anos, com barba por fazer e usando um robe saiu do banheiro. Saudou as recepcionistas:

- Bom dia, gatinhas! Fizeram o café?

Uma delas respondeu:

- Bom dia, senhor Alcides! Sim, tá ali na mesa da copa, na térmica.

Alcides sorriu, deu um rápido pulo na copa, pegou seu café, agarrou um jornal que repousava sobre o guarda-revistas e sentou-se em uma das cadeiras da sala de espera.  Rivaldo fez cara de confusão: ''quem diabos era aquele sujeito para estar usando pijamas num consultório médico?”. Colocando toda a capacidade intelectual sua para funcionar, concluiu que Alcides devia ser o dono da clínica, ou coisa parecida, que trabalhava todos os dias até tarde e evitava a fadiga do tráfego de São Paulo dormindo em seu próprio consultório.

- Senhor Rivaldo, aqui seus documentos –disse a ‘‘silenciosa’’, dirigindo-os em direção a Rivaldo-. Agora é só aguardar.

Rivaldo agradeceu e voltou às cadeiras. Apenas duas mais estavam livres, escolheu sentar-se naquela ao lado de uma senhora de óculos garrafais e ar simpático. Concentrou-se novamente no programa de auditório que passava na TV. Meia-hora passou-se sem que pouco percebesse, e mais meia já com perceptivel incômodo: ‘’Nossa, que demora! Porque será que tá demorando tanto?’’. A senhora ao lado levantou-se e dirigiu-se para frente das cadeiras, onde todos podiam lhe ver:

- Meu povo, já são 11 horas, tá na hora de buscar a merenda.  Quem vai hoje?

Um silêncio momentaneamente rápido pairou no ar até que Alcides falasse:

- Eu só sei que eu não vou, fui anteontem. Acho que tá na hora do Valmir ir, já tem uma semana que ele não vai.

Entre os pacientes ouviu-se um certo murmuro uníssono de concordância: era Valmir. À contragosto, um sujeito moreno, de não mais de 30 anos, levantou-se de uma das cadeiras ao fundo da sala e foi até a frente:

- Beleza, eu vou, tenho respeito às regras. E o dinheiro?

Quase todos na sala levantaram de suas cadeiras, poucos ficaram sentados, com faces tão consternadas e confusas quanto a de Rivaldo. Os levantados abriram suas carteiras e retiraram notas de vinte, cada um, e entregaram-nas a Valmir. Antes que o jovem colocasse todo aquele dinheiro no bolso, Alcides tocou-lhe o ombro:

- Sem demorar, viu. Lembra do que aconteceu com a Ivonete.

O jovem acenou com a cabeça, transpareceu confiança, e saiu pela porta de entrada rapidamente. Todos voltaram a sentar. Rivaldo já começava a se sentir preocupado, o que era aquilo? O que estava acontecendo ali? Alcides, vendo um espaço vago, sentou-se ao seu lado:

- Tu é novo aqui, né? – indagou a Rivaldo.

Sem entender muito bem, respondeu perguntando:

- Como assim?
- Chegou hoje na clínica. Não reconheci teu rosto quando saí do banheiro. Além do mais tu não deu dinheiro pra merenda.

Rivaldo, completamente perdido, fez a única coisa que lhe restava naquele momento:

- Cara, eu não tô entendendo nada.

Alcides esbanjou um sorrisinho picareta, deu leves risadinhas, bateu-lhe no ombro e retrucou:

- As refeições são às 07, 12, e 18. Se dormir demais perde uma delas. Como eu hoj...

Alcides foi interrompido pelo som de um dos consultórios se abrindo. Era a doutor Ricardo quem aparecia:

- Lívia. – gritou o médico. Era a paciente da vez.

Todos viraram seus rostos para Lívia, uma moça magra, loira e jovem. Ela lentamente foi se levantado da cadeira, ainda em choque, em seus olhos começavam a brotar sutis lágrimas. Rapidamente, uma quantidade considerável de pacientes levantou-se e começou a abraçá-la. Palavras de ‘’parabéns’’ apareciam sem parar, beijos no rosto e recados como ‘’sentirei saudades tuas, mas te vejo lá fora, viu?’’. Aplaudida, a jovem entrou no consultório do doutor Ricardo e a porta branca com um número 1 se fechou.

Durante alguns instantes após a saída de Lívia o que mais se viu foram feições de inveja, como se todos ali quisessem estar no lugar dela. Entretanto, um impasse logístico havia surgido para ser solucionado, rompendo a onda de caras invejosas:

- E quem vai ficar com a comida da Lívia? Ela pagou a merenda de hoje. – perguntou um rapaz ao fundo, de cabelos longos.

Um silêncio duvidoso começou a se estabelecer e a massa dirigiu os olhos a Alcides, que tomou a palavra:

- Bom, já que o poder de decisão cabe a mim, mediante decisão coletiva previamente acordada, eu decido que ela vai ficar pro jovem aqui ao meu lado – apontando para Rivaldo- que chegou há poucas horas. Vai ser nosso presente de boas-vindas a ele.

Todos concordaram, a palavra de Alcides deveria ser respeita, sobretudo porque confiavam nele.

- Bom, meu jovem, bem-vindo. Espero que nossa convivência seja frutífera e amável – finalizou Alcides, olhando para Rivaldo-. Enquanto se levantava, Rivaldo agarrou seu braço:
- ‘‘Convivência’’? ‘‘Bem-vindo’’? Que porra tu tá falando, cara? Tem como alguém me explicar o que tá acontecendo, por favor? Já tô aqui há umas três horas e vi uma coisa mais sem-nexo que a outra...

O homem de robe deu um leve sorriso e apresentou um olhar desdenhoso:

- Sério que tu ainda não entendeu?
- Não! – gritou Rivaldo, perdendo já a compostura.
- Calma, jovem; só achei que tua dedução lógica do mundo fosse mais apurada. Vou te explicar.

Ao se sentar novamente ao lado de Rivaldo, Alcides gritou:

- Zé Maria! Raquel!

Da multidão de cadeiras um senhor de pelo menos 70 anos e uma mulher de aparentes 40 foram ao encontro de Alcides.

- Sim, líder Alcides – entoaram.

Novamente, foi ele quem tomou a palavra:

- Tá vendo esses dois aí na tua frente, criança? –perguntou a Rivaldo- Eles estão aqui na clínica há dez anos. São dez anos esperando a consulta deles chegar, dez anos de espera. Zé Maria perdeu o nascimento do primeiro neto porque já tava aqui esperando o doutor Ricardo chamá-lo. O neto, hoje criança, vem aqui visitá-lo de vez em quando. E aí, seu Zé esse ano sai a consulta? – dirigiu-se Alcides ao senhorzinho.

- Fé em Deus que esse ano sai, doutor Alcides. E depois ainda tenho que ver esse joelho aqui na clínica da doutora Berenice quando sair daqui.

Alcides riu:

- E essa aqui, ó – apontando para a mulher-, é a Raquel; chegou à clínica poucas horas do seu Zé Maria, só pra uma consulta de retorno de exame com a doutora Ivânia. Já tá aqui tem dez anos.
- E doze dias – complementou Raquel.
- Verdade, desculpa, Raquel. Fizemos tua festinha de 10 anos semana retrasada...

À esta altura, Rivaldo já estava suando frio:

- Então, meu jovem, esta é nossa realidade, só estamos esperando nossa consulta, todos aqui. Cada um cheio de esperanças e anseios da vida pós-consulta. Cada um enganado pelas palavras ‘’é só aguardar’’ ditas pelas recepcionistas...

Rivaldo, a este ponto completamente chocado, calou-se por alguns segundos até proferir:

- Bom, assim sendo, acho que vou pra casa mesmo. Eu não tô disposto a passar o resto da minha vida esperando uma consulta. Vou em outro lugar...

Assim que Rivaldo levantou-se para seguir até a porta de saída, Alcides agarrou-lhe suavemente pelo braço:

- Olha, meu jovem, tu pode até tentar ir em outro lugar, mas te garanto que vai ser igual a aqui: uma longa espera. Aqui, pelo menos, somos uma família, temos direitos e deveres, acesso a alimentação, e carinho mútuo. Mas não posso te garantir que você vai encontrar isso noutros lugares... Ali mesmo no quinto andar, no consultório da doutora Matilde, fiquei sabendo que já tá imperando a lei marcial, viu... Um ‘‘Talião’’ descarado...

Rivaldo ouviu estas palavras e olhou para o chão: não tinha para onde fugir. Precisava daquela consulta e precisar de uma consulta era enfrentar aquela realidade, em qualquer lugar que fosse. Sorriu cinicamente para Alcides e despencou sobre a cadeira. Foi quando a porta de entrada abriu-se num sopro: era Valmir com as marmitas.

- Cheguei, meu povo! Tá tudo aqui!

Uma fila rapidamente foi formada em direção a Valmir, que entregou as marmitas, uma a uma, a cada um daqueles que haviam dado dinheiro para compra-las. No final, uma restou:

- Chefe – disse Valmir a Alcides- cadê a Lívia?
- Foi atendida, a marmita dela vai ficar pra esse jovem aqui –apontando para Rivaldo-, ele é novo na casa.

Valmir entregou-lhe a marmita em mãos e disse:

- Seja bem-vindo, amigo.

Rivaldo sorriu, olhou para o isopor que embalava a comida, roeu os dentes e pegou o celular. Mandou um recado à Maju:

- Nêga, vou me atrasar. Deixa a janta no micro.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Escola, Matemática e Papelaria

Eu constantemente tenho o pesadelo de que estou de volta à escola, tendo aula de matemática. Quando eu era graduando eles geralmente se tratavam de mim tendo que deixar a faculdade para refazer o ensino médio ou tendo que fazer os dois ao mesmo tempo. São geralmente terror puro. Esta noite eu tive o primeiro sonho de ‘’de volta ao colégio’’ já formado.
Entro no colégio. Saúdo os porteiros, amigos meus de outras épocas. ‘’Daí, Daniel! Veio fazer a matrícula?’’ –eles gritam- e eu simplesmente aceno que sim com a cabeça e com a feição satisfeita. Lembro que é necessário passar na papelaria da escola, como todos os anos, para averiguar a lista de material e comprar todos os seus componentes. A moça do caixa me recebe perguntando quem sou:
- Meu nome é Daniel, fui aluno aqui há uns cinco anos, acabei de me formar e voltei agora pra fazer o ensino médio de novo.
Ela e outras pessoas em volta endossam minha resposta, como se fosse este um movimento vital absolutamente normal, aparentemente muita gente faz isso. Recebo em mãos um papel vindo de um envelope azulado, a tal lista de compras, simbolizando o preço dos materiais como um todo: oito mil reais.
- Deixa eu ver, Dani – diz meu pai às minhas costas, aparecendo absolutamente do nada, sem que eu nem o tenha visto chegando.
Ele pega a lista e começa a analisa-la, mas antes de dizer qualquer palavra eu relevo:
- Calma, pai, tá caro mas não tem problema, eu vou procurar esses livros nos sites de pirataria de livros que a gente usava na UnB... É tranquilo, vou achar tudo. Pode confiar.
Corta a cena. Eu –é claro- sou transportado diretamente pra sala de aula e lá no quadro branco rabiscado se mostrava: aula de matemática. Desespero exala: eu já tinha escapado disso uma vez -para nunca mais voltar-, que caralhos estou fazendo aqui de novo? O professor fala o conteúdo da prova da próxima aula e eu continuo a pensar: ‘’Prova? Pelo amor de Deus, não faço a menor ideia do conteúdo, eu não estudo isso tem uns quatro anos!’’. É aí que o professor, como quase sempre ocorre nesses sonhos, vira-se para mim e fala:
- Vai voltar pra universidade quando, Daniel? – e gargalha: ele sabe que estou condenado a repetir de ano por conta da prova de matemática que não sei o conteúdo, e pior, a passar mais três ou mais anos tendo aula daquilo.
Ao tocar o sinal, saio da sala, reconhecendo ninguém entre os alunos da ‘’nova geração’’ e sendo discernido por muitos como uma espécie de ancião. Duas gurias conversam ao fundo, achando que não estou lhes ouvindo:
- Tá vendo aquele cabeludo ali? Repetiu umas sete vezes...
Ao descer as escadas, esbarro com o coordenador:
- Daniel! Que bom tê-lo de volta! Você vai ver que três anos passam rápido, guerreiro! (Observação: a palavra ‘’guerreiro’’ foi provavelmente uma sutil tripudiada com minha cara por parte de meu subconsciente -a famosa cerejinha no sundae-, já que era assim que o recrutador se dirigia a mim quando me enganou dizendo que teria que servir ao exército).
Puff! Acordo. São e salvo, inteiro, respirando, e sem estar de volta à escola tendo aula de matemática. Meu subconsciente é um baita roteirista tragicômico.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A Irrivalidade

Há muitos anos, na cidade de Nova Santana, pertencente à microrregião gaúcha de Lajeado-Estrela, ocorreu um fenômeno ímpar na história do futebol mundial: a irrivalidade. Desde os primórdios da terceira década do século XX, um pequeno clube local fazia a alegria momentânea dos citadinos, ainda que de natureza amadora. O Recreativo Santanense Gaúcho -ou simplesmente Santanense- basicamente introduziu o futebol na cidade, quando seu criador, Paulo Horan, trouxe a primeira bola de futebol para a urbes, popularizando o futebol na redondeza, e começando, finalmente, a colocar em perigo esportes relevantes na vida local, como a bocha ou as carreiras de carreto.

O Santanense profissionalizou-se nos anos 50, graças aos esforços de seu criador, e logo assumiu o orgulho de ser o primeiro clube profissional da cidade. Horan, que herdou de si mesmo o cargo de presidente-vitalício, estabeleceu a sede do clube no bairro Castilhos, no centro da cidade, e começou a esmolar com a prefeitura alguns centavos para compra de um terreno que viabilizasse a construção de um estádio para o Santanense. De maneiras oblíquas e até hoje mal explicadas, o clube ergueu seu estádio em tempo recorde e içou suas bandeiras em frente à cancha no dia primeiro de agosto de 1952: dali em diante o Santanense mandaria seus jogos no Estádio Gaúcho Paulo Horan, nomeado popularmente como ‘’A Faconaria’’, pois seria lá onde o Santanense passaria o faconaço em seus adversários.

Durante dez anos, o clube, cujo mascote era o Gauderinho, logrou popularidade entre os habitantes de Nova Santana, e seus jogos, ainda que irrelevantes do ponto de vista regional, eram considerados grandes eventos na vida social da cidade. O clube começava a ganhar força para brigar entre os melhores das divisões de acesso do futebol gaúcho quando um evento abalou sua estrutura: a fundação, em 1963, do Esporte Clube Rajado, o segundo clube profissional da cidade. O Rajado fundou-se a dois bairros de distância do Santanense, por um bando de estancieiros desocupados que clamavam que a cidade merecia um clube de maior qualidade. Seu nome era atribuído a fins quase que proféticos, uma vez que seu presidente e membro-fundador, Evaristo Weitz, disse que foi numa noite de bocha que uma rajada de ventos lhe revelou que o Santanense não era clube digno para a cidade. A mídia local logo tratou de propagar a história, atingindo o ápice, pelo jornal Manhã de Santana, de que o próprio Cristo entregara a mensagem a Weitz. Tratou-se, também, de divulgar-se que agora havia uma rivalidade municipal entre Santanense e Rajado e propunha-se o primeiro clássico sa-raja para o mês seguinte, mesmo que nem equipe completa de jogadores o Rajado ainda tivesse.

A reação de Horan foi imprevisível: todos esperavam a aceitação do conflito, mas o que foi feito foi justamente o reverso. O presidente-vitalício divulgou uma nota oficial parabenizando o Rajado por sua formação e dizia que era contra a política de rivalidade ‘’insuflada pelas mídias’’. Ao logo de sua nota, perguntou-se três rotundas e categóricas vezes: ‘’porque clubes da mesma cidade têm a obrigação de serem rivais?’’. Ao final, sentenciou: ‘’Santanense e Rajado são clubes irmãos, são irrivais’’.

A nota foi um furor local. Ninguém conseguia entender muito bem o que passava pela cabeça de Horan, mas o conluio midiático logo decidiu o que era manchete: ‘’Presidente do Santanense ignora a importância de novo rival’’. Na mesma semana, os principais meios de comunicação entrevistavam a Evaristo Weitz e suas afirmações eram sempre iguais: ‘’Horan acha que não temos nem a condição de sermos seus rivais. Pois ele vai ver só’’.

Logo na segunda-feira que se seguiu a tais entrevistas, Weitz conseguiu marcar um amistoso contra o Santanense em frente à prefeitura da cidade, aproveitando-se da boa relação que possuía com o prefeito Amaro Gandini Júnior, filho do finado ex-prefeito Amaro Gandini, a quem Júnior atribuía a responsabilidade, e não a Horan, de ter trazido a primeira bola de futebol para Nova Santana. No domingo consequente seria realizado o primeiro clássico sa-raja e os meios de comunicação começaram a alimentar um clima belicoso antes mesmo do fim da segunda-feira. Contudo, faltava combinar com o Santanense, ou melhor, com Horan. Como era de se esperar, Horan repeliu a conduta de Weitz por meio de nota publicada pelos jornais locais e sacramentou com magnitude: ‘’Se o amistoso não for desmarcado, o Santanense não entra em campo’’.

Não demorou um dia para que o Manhã de Santana publicasse uma matéria a respeito da nota de Horan, cuja natureza o periódico considerava ‘’mais contraditória que o próprio presidente do Santanense’’, uma vez que se lançavam as perguntas: ‘’Como Horan predica a irrivalidade, como ele mesmo diz, e possui um estádio apelidado de ‘’A Faconaria’’? Um clube ‘’irrival’’ como o Santanense não deveria ser, no mínimo,­­ pacifista?’’. Distribuído pelas bancas e casas de Nova Santana, as perguntas do Manhã começaram a ressoar pelas ruas, e o boca-boca dos cidadãos as endossavam cada vez mais. Os torcedores e simpatizantes do Santanense pareciam cada vez mais sem argumentos no debate futebolístico, visto o impacto da manchete, obrigando Horan a soltar mais uma nota, na quarta-feira, explicando-se: ‘’Como é triste ver que se quer fúria ao invés de cooperação. O apelido ‘’A Faconaria’’ não foi inventado por mim, mas admito que meu silêncio o endossou. Porém, o que queriam vocês, então? Que no Rio Grande do Sul um time não remetesse, em seu nascimento, a uma cultura aguerrida e matadoura? Farroupilha? O Santanense não duraria dois segundos! É preciso agradar a direita. De todo modo, sempre me pareceu que o apelido ‘’Faconaria’’­­­­ era uma homenagem aos talentosos produtores de facas da região...’’.

Como era de se esperar, já que um debate jornal versus notas havia se estabelecido, o Manhã de Santana amanheceu na quinta-feira estampando: ‘’Horan, traidor do povo gaúcho’’. Os outros jornais seguiam o mesmo teor, e o Rajado, excepcionalmente, lançou uma nota de repúdio às afirmações de Horan, taxando-o de ‘’vermelho e ególatra de marca maior’’. Ao final, o clube prometia aos seus fãs que não esperassem nada menos do que sangue em campo, ‘’como manda a tradição gaúcha’’. A cidade quase parou para esperar a próxima movimentação de Horan neste debate, só não houve pipoca porque o rio Uruguai não é o Hudson.

Silêncio. Silêncio monumental e absoluto de Horan e do Santanense. A opinião pública, evidentemente, frustrou-se, e, em principal, aqueles que gostam de simplesmente apreciar o circo pegar fogo. Diante da frustração da não-resposta e do silêncio que pairou pelo lado santanense do embate, os jornais começaram a se perguntar, até o dia de domingo, se Horan realmente manteria sua ameaça.

Raiou o dia do amistoso e a cidade exalava empolgação. Bandeirinhas com as cores do Rajado e do Santanense enfeitavam as ruas, pessoas vestidas com estas mesmas cores circulavam pela cidade e, inclusive, na frente da prefeitura um homem fantasiado de vento, mascote do Rajado, alegrava aos transeuntes. Na frente d’A Faconaria, todavia, não se via a mesma emoção: portões totalmente fechados, pouco fluxo de pedestres e nenhum sinal de que houvesse qualquer vida do clube por ali. O horário do amistoso arrastou-se para chegar, mas chegou. O estádio municipal Amaro Gandini estava abarrotado de gente e registrou-se o recorde de lotação, jamais batido até hoje. A prefeitura tratou, inclusive, de ampliar o espaço de arquibancada, instalando estruturas provisórias e removíveis para que mais gente coubesse no estádio. Além disso, trouxe possíveis patrocinadores das cidades do entorno e, diz-se, que até empresários do ramo têxtil enviaram representantes para acompanhar a partida. Aproveitando de sua amizade com o prefeito, Weitz conseguiu com que a prefeitura presenteasse todos os jogadores do Rajado com chuteiras novas e meiões de algodão puro, além de ter recebido, dizem alguns, 20% dos lucros do evento para o seu próprio bolso. A atmosfera estava gigantesca para ser o mais especial dos acontecimentos da história de Nova Santana, mas o Santanense não deu as caras. Horan cumpriu sua promessa, seu clube jamais iria concordar com a cultura de ter um rival sem motivo ou necessidade.

A irrivalidade representou um baque do qual o futebol de Nova Santana nunca se recuperou. Após a recusa do Santanense de entrar em campo, o clube começou a perder popularidade em ritmo alarmante, ninguém queria ser associado a um clube que se recusava a pelear ou, pior, ‘’que tinha medo de jogar’’, como publicou o Manhã de Santana, um dia após o jogo. Isolado financeiramente e em franca derrocada de apoio popular, o Santanense durou apenas mais três anos e fechou suas atividades após ficar em penúltimo lugar na última divisão do futebol gaúcho. Horan vendeu o clube e ‘’A Faconaria’’ a preço de banana para empresários do ramo têxtil, que, por sua vez, fecharam o clube e construíram uma grande indústria de tecidos no lugar do antigo estádio. Evaristo Weitz, aproveitando-se da impopularidade do Santanense após ‘’o clássico que não houve’’, viu o Rajado fazer campanhas históricas nas divisões de acesso e, enquanto o dinheiro da prefeitura entrou, seu clube conseguiu chegar à segunda divisão gaúcha. Mas, em pouco tempo, o Rajado foi à bancarrota, assim como seu antigo ‘’irrival’’, após abruptamente perder o apoio do prefeito Gandini Júnior, sem motivos aparentes, e dos recém-chegados empresários do ramo têxtil. Estes empresários, que, aliás, eram os mesmos que haviam fechado o Santanense, compraram a sede do Rajado em 1969 e lá estabeleceram uma grande loja de camisas e acessórios naturais de sua fábrica. O Rajado, que na prática já havia encerrado suas atividades, oficializou o seu fim um dia depois da inauguração de tal loja e passou a ser um clube amador de iniciativa popular, que periodicamente joga para angariar fundos para obras públicas. A última informação que se sabe a respeito de Evaristo Weitz é de que formou-se em jornalismo e que foi contratado pelo Manhã de Santana logo depois. Ele e seu antigo amigo Amaro Gandini Júnior nunca mais conversaram, e em todas as campanhas eleitorais que o prefeito concorrera à reeleição Weitz fez campanha contra. Entretanto, sua influência política frente ao apoio que Gandini Júnior possuía dos empresários têxteis da cidade era ínfima. O prefeito manteve-se ainda por muitos anos no cargo.

Bom, quanto a Horan, as informações são desencontradas. Alguns dizem que, após fechar o Santanense, permaneceu na cidade até o fim da vida, vivendo a amargura de ver seu projeto de vida como um fracasso. Outros dizem que permaneceu, sim, na cidade, mas que saía cantando sempre vitória pelas ruas, dizendo que o Santanense havia vencido a cultura espoliativa e opressora das forças centrais de que clubes da mesma cidade têm a necessidade de serem rivais. Fontes mais desencontradas dizem, também, que foi embora de Nova Santana, tamanha sua vergonha, e que estabeleceu um investimento num vinhedo de alguns italianos de Rio Grande. Outras, um pouco mais ‘’enfáticas’’, afirmam com seriedade que Horan teve que fugir, sob ameaça de morte, do Rio Grande do Sul, por ser visto como um traidor da ‘’raça gaudéria’’ dentro das quatro-linhas. Alguns dos mesmos que defendem esta versão, acrescentam que Horan se estabelecera na Europa e que seu nome chegou a ser cogitado ao Nobel da Paz, assim que os europeus, estupefatos, souberam de sua história.

Hoje, na memória oficial da cidade, não se menciona o Recreativo Santanense Gaúcho como pioneiro do futebol da cidade, tampouco de que foi, durante alguns anos, símbolo citadino. A versão oficial menciona apenas o Rajado, cuja singela homenagem repousa em formato de placa em frente ao estádio municipal da cidade. Horan, não é nem necessário falar, foi um nome apagado da história de Nova Santana e nos anais oficiais presentes nos arquivos à apenas um nome se atribui a introdução do futebol no município: Amado Gandini. O fato inconteste é que, após o fim da agonia do Rajado, o paradigma do esporte finalmente voltou à sua antiga normalidade centenária: a bocha e as carreiras de carreto voltaram à preferência dos santanenses.

Dorneles Zanoli