quinta-feira, 24 de março de 2022

Ceteris Paribus

Eu sou como aquele velho ladrão de antiquário,
Carcomido como as peças roubadas, 
ao invés dos relógios e pratarias, 
Roubo memórias e cenas imaginadas.

Tudo que posso um dia imaginar são memórias não vividas, 
Rapinadas por um nome cujo esquecer segreda identidade
Vitimei-me pelo ato de imaginar a felicidade:
A imagem, 
Tu doutro lado da janela, a beber café e olhar a neve, 
A neve - a cobrir
, delicada e paciente; que me ferve

A imagem - e isso é tudo:
Em meu peito pulsando todo o mundo,
Dou-me costas e desvaneço-me:
O amar pueril ao qual sucumbo, 
É mais nada e é o tudo.  

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Sem Título III

Andam por aí a cuspir,
Aqueles velhos claudicantes,
Irriquietos por decreto - ou por um escuro indelével
O marasmo de estar.
Aqueles daqueles mortos malmequeres,
Que nascem sem se ir,
justam por aí e desamam-se a ruir.
São aqueles, mais daqueles - apenas eles,
Que se apaixonam, sol nasce, sol desce;
Pela falsa filáucia de a si suprir.

A alma é escrava da palavra
E a esquina já está farta de agonia:
Apenas um tolo beligeraria,
Apenas um parvo não partilhar-se-ia
Pela luz que arenga a dádiva do boteco vazio,
Acorda lá o cicio - das vidas apartadas:

"Façai-vos em pedaços e cativos os entreguem nas mãos amadas;
Ouçai o sibilar do pecado divinal que beija a orelha dos surdos:
Enamorados bebem do abafado arrepiante do corações não-mudos".

domingo, 23 de janeiro de 2022

Reka Volga

To Olya

It was just good enough to know you were upstairs
No further words; no nothing, no things
Your presence is the suffering the Volga spares,
The wave to the burglars with wings. 

No need for nothing - or anything, who knows
It was just too good to know you were around
The end is nothing but the sunrise of the blows
But what are those when the magic of you still surrounds? 

It's just too good to know you exist:
Healing the scars of disbelief, 
Caging the rage of misdemeanors.
It's just too good to see that within you the miracle persists.

The waters of you shall never freeze - let alone they won't ever end in the Caspian Sea.
You are the flood hope dives in
And to wherever your sight leads, 
- I'm very sure indeed -
Joy will follow, everlastingly.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Basilea

"Ir y quedarse", foi marcado.
Tardei anos a perceber estas palavras: 
Armei-me dos melhores pecados, 
da teimosia, o gozo; o trovar de Kerib.
Esqueci a semântica, como quem se esquece de acordar, 
Já que trazendo cá tu era tudo igual:
Audaz e devota como o lobo a cada nova lua. 

"Zarpar" - chegada é a hora, sabujos
Ir-se sem deveras ficar: que apenas no mar o azul viva
Navegar e amar as cores nunca dantes vistas,
Afogar-se à Lemúria e venerar o que o inaudito inclui,
Nunca mais ancorar 

Milhares de batidas de distância atesta a aurora
Inverno ao que não é terno: pretérito, lux aeterna,
Guia aos maltrapilhos de outr'ora.
Setembros sem ter, espalma-me o dia
Lecionar-me-ei a eu mesmo a ser, ao beliscar do atemoro da nova sinfonia
"Não temas", recita Isaiah,
- Amar é amar o amar. 
Badalou por último o sino da nossa juventude
"Saem os pássaros, vê: batem asas para nunca regressar" 


segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Alexandropol

Estou a tomar o trem
No primeiro vagão, onde repousam os argutos,
Repousado no banco que a mim não foi desenhado 
Fito afora os cães vadios a sirelepear 
Em meio à sujeira daqueles que a toda hora um destino é abandonado. 

Fito-te em meio ao vazio da fumaça,
O vazio do "se" e o vazio de algures,
O espectro infindo que o viver traça
E que a mim sorri a cada apagar de luzes

A buzina aqui ressona, 
Ecoa portentosa como se o mundo inteiro fosse uma bolita insólita:
Lá hás de ouvi-la, 
Ela é o furor do teu nome cá acima. 

Efervescência

Mirei o nada e tudo vi:
Na visita do meio-dia
Feição, íris vencido 
Em meio aos castanhos daqui moradia

Foi-me dito pelo Mudo:
"Vê sem ver e crê para nascer,
E isso é tudo"
Padeci de ouvir e nasci mil vezes,
Continuei a nascer e vivi de mim companheiro.
Matreiro,
Se viesse disso o certo, o mundo bastar-me-ia, 
Mas tua sou oferenda, o milagre que em ti é de fato a nascença.
Teu corpo junto ao meu:
Efervescência 

sábado, 9 de outubro de 2021

Exiguidade

Quando a luz tapeou-me a face 
A dizer que acordasse que era dia
Aqueles algures e alhures disseram-me que tratava-se de vida.
Nada bateu-me tão forte para alertar,
Não abri os olhos até que a luz pululasse, 
Tardei-me até me sorrir a tombola.
Puseram-me os olhos numa bica, flutuei atordoado pelos afluentes amadeirados que derretiam-nos a testa.
Não houve injúria ou penúria, 
Padeci de olhos saudáveis ao ver o encontro do lagos:
O verde e o encarnado,
O grito uirapurano e a ventania que expulsa o homem maturado.
Feliz e ditoso sequei-me abaixo dos amarelos ipês, brindei o cheiro vazio da maré turquesa que de longe viera, dando vida onde nunca nada dantes houvera.
Abençoado dentre aqueles que vieram e virão, 
E que no topo da coxilha esperam nova benção da turquesa, regalaste-me a vida muito mais duma vez:
Sublimar-nos-emos, como já dito foi antes e depois - alpha et omega, principium et finis.