quarta-feira, 22 de julho de 2026

In absentia


Desde pequeno,
Desde antes do nascimento,
Já senti que me amavas,
E mesmo com o passar do tempo,
a des-ação de nós mesmos,
Eu sabia que aquele amor restava.

Neste momento,
Em que o tempo já nos teve
—por tanto tempo—
Quero dizer-te que ele ainda não te deteve,
Quero recitar que em tua ausência
Nada, mesmo na impaciência, pereceu,
Quero declarar que aqui ainda estou eu.

Meu pai! Se eu puder te dizer algo mais
Alguma coisa tonta ou duradoura,
Por mais que não me ouças,
É que nada está acabado:
Nada nunca estará acabado.
Então, se puderes fitar o céu estrelado,
Lembra-te daquele dia
Em que seguraste-me a mão pela primeira vez,
O momento em que tudo de fato se fez,
Enquanto o sol subia.

sábado, 11 de julho de 2026

Amasia

Passamos reto ao lado da cidade das casas coloridas, reto.
Recusamo-nos a nela virar,
Preferimos o rumo dos montes um pouco depois,
Preferimos o branco que tomava tudo, até o horizonte.

Foi em meio a toda aquela neve infinita
Que teu longo cabelo vermelho, 
Brilhando na ausência do sol e da cor,
Era o suficiente para colorir tudo o que deixamos ultrapassado:
Toda a cor deixada em Amasia estava reparada,
Todas as cores do mundo ali estavam,
Naqueles teus fios encarnados.

Tropeçamos e caímos juntos,
Passamos frio naqueles montes juntos,
Afundamos ao caminhar juntos,
E não falhamos em sentirmo-nos seguros juntos.

Ao voltarmos, ao deixarmos o presente ser passado,
Amasia e suas coloridas casas e morros pálidos eram nada,
Shirak era nada,
Estar rodeado pelo local mais frio da Armênia era nada:
Não tremi, não
–nem por um segundo–
Pois nenhum inverno alcançava o segurar de tua mão.
Naquele momento eu, sim, estava
No local mais quente que jamais poderia,
Seja um dia na vida,
Um dia no mundo,
Um dia em tudo.