sábado, 9 de outubro de 2021

Exiguidade

Quando a luz tapeou-me a face 
A dizer que acordasse que era dia
Aqueles algures e alhures disseram-me que tratava-se de vida.
Nada bateu-me tão forte para alertar,
Não abri os olhos até que a luz pululasse, 
Tardei-me até me sorrir a tombola.
Puseram-me os olhos numa bica, flutuei atordoado pelos afluentes amadeirados que derretiam-nos a testa.
Não houve injúria ou penúria, 
Padeci de olhos saudáveis ao ver o encontro do lagos:
O verde e o encarnado,
O grito uirapurano e a ventania que expulsa o homem maturado.
Feliz e ditoso sequei-me abaixo dos amarelos ipês, brindei o cheiro vazio da maré turquesa que de longe viera, dando vida onde nunca nada dantes houvera.
Abençoado dentre aqueles que vieram e virão, 
E que no topo da coxilha esperam nova benção da turquesa, regalaste-me a vida muito mais duma vez:
Sublimar-nos-emos, como já dito foi antes e depois - alpha et omega, principium et finis.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Bell'isola

La mattina e la sera hai vinto
Come regali delle stelle, 
Quelle lucette che ti piacciono tanto.
Sono cadute le stelle, gonfiate di amare il cielo stanco,
e adesso riposano,
nella mano tua.

Benedette sono le tue dita,
Portatore del miracolo di essere,
Essere senza smettere di esistere,
Ed esistere sicure dell'alba della fiducia. 

Diventare la tua immagine, pregare che mi guardi, 
Rimanere pronto a aspettare il rumore della benedizione.
Il mistero di sentirti brucia la memoria da quando siamo stati ragazzini 
E il tuo mirare azzuro scavava il fuoco ardente dei nostri cuori innocenti.

Vivi, vivrai, mirare azzuro 
Qui sei tu perché qui sono io
Permanenza, la giornata sconosciuta la conosco
Sorridi a me: è come se sorridesse Dio.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Póntos

Aqueles cristalinos tingidos de tão profundo azul - do turquesa mais altivo em assomar -,
Sempre nos disseram que eram da cor do mar. 
Enquanto no seco cabelo daquele que fitava a fumaça repelida pelo auto
caía o orvalho cansado,
Não se podia ver, além de si própria, que o mar enchia-se;
Não se podia ver que o mar encontrava o oceano.

Aquele do seco cabelo jamais soube,
Que o orvalho cansado foi ter com o vidro protetor do oceano
E fez-se gota, 
pois há águas que não se mesclam.
Escorreu conforme o transbordante batia-se, em fuga, contra o vento cortante
e caiu sem sutileza, 
num metal de calçada carcomido por outras águas e velheira.

Naquele momento em que o silêncio se esgueira,
Lembrou-se a gota daquele azul turquesa
E evaporou, sorrindo, a pensar, 
Que o amor pode enferrujar
Mas inoxidável é o amar.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Blossoming

It is like daydreaming, they upheld and smiled
Smashing thoughts among the untaken ones,
Untaken unable to leave the blossoming yard
We shall not perish to stillborn dreams, they shouted 

I heard'em and shouted along 
Inhaling all the dust of years, foregone
We were blossoming like sunflowers, unbound
when winds arrived town.
Bees and nectars flying around
So we could see what the dust really was
Nothing but joy, nothing but you.

No need to daydream when you're already dreaming, so said you;
As your lips touched my forehead
And happiness was our future to blossom, ahead. 

domingo, 27 de junho de 2021

Haveres

Se houvesse de haver um haver
Que a Divindade do tempo apertasse-me a bochecha e sorrisse. 
Clio é morta, resta apenas o bater de asas do canário e o barulho do vento contra suas penas.
Bicou-me a testa a cotovia vadia para dizer-me estas cantarolas 
E suas asas só tornaram a bater quando deparei-me que "nada" é haver.

Haver de, haver para, haver para haver
Mundo, incauto de existir, beija o fastio: cabelos ao vento são só cabelos

Feito o carreto, deixei o pago.
Soprou-me o Minuano ao ouvido
Que as nuvens sejam a casa dos passarinhos 
E que os passarinhos minha casa sejam.


segunda-feira, 22 de março de 2021

Otto

Fazem duas semanas que meu cachorro morreu. Por mais ignóbil que pareça a alguns, viver ao lado de um cão fez-me quem sou e, desta forma, vê-lo reduzido a cinzas que repousam numa caixinha na sala de estar me mergulha em uma miríade de sentimentos intranquilos. Poderia eu começar pela saudade, tão presente no barulho do vazio que Otto deixou; poderia complementar, ainda mais, com o aprender a aprender a ausência. Mas tudo isso já foi pensado e revirado por meus neurônios, que nesse instante não me autorizam a falar destas coisas. O que mais cutuca é na verdade a pequenez, o intangível. Há muito enfrento a inquietude de pensar que isso tudo se resume a nada, que a vida se resume a acidentes sem significado. Em outros tempos, isso já me desesperou e já li que é uma lamúria que pode levar à loucura. Nós precisamos de sentido para criar novos sentidos e ainda que aceitemos o acaso, isto é aceitar um sentido. No meu caso, minha cristandade e teimosia constantemente batem de frente com o senso de incredulidade do todo, resultando na combinação mais fajuta: não pensar sobre. Mas as cinzas do Otto na sala são caminho inescapável a tal pensamento. Se tudo se reduz às cinzas, porque tudo isso? Não me apraz apelar ao Pirronismo, mas até que ponto a felicidade compensa a dor? Tudo isso me parece um beco sem saída, e talvez com um quê de injustiça: abre-se os olhos um dia e se ouve "viva". Sem escolha, sem reembolsos. 

Não posso dizer o que será e porquê será, apenas sei que viver mais que a metade de minha vida com Otto foi um acaso que valeu o acidente. E se vivermos do acidente nos faz acreditar que isto é isto, e isto de fato vale a pena ser zelado, que amemo-lo. 

Por enquanto me parece a melhor opção, da qual os latidos em minha memória parecem querer dizer que devemos cuidar duns aos outros, importar-se sem parar, esperançar-se sem floreios. E por enquanto, parece-me que quando virarmos cinzas, estas só serão cinzas - tudo mais, nada mais. Duvido da consciência das cinzas, tampouco de que elas serão capazes de algo além de simplesmente voar com o vento. Tenha noção do peso do teu acidente e do teu ineditismo: neste caso, eles jamais se repetirão, nem como tragédias. 

terça-feira, 9 de março de 2021