quinta-feira, 8 de julho de 2021

Póntos

Aqueles cristalinos tingidos de tão profundo azul - do turquesa mais altivo em assomar -,
Sempre nos disseram que eram da cor do mar. 
Enquanto no seco cabelo daquele que fitava a fumaça repelida pelo auto
caía o orvalho cansado,
Não se podia ver, além de si própria, que o mar enchia-se;
Não se podia ver que o mar encontrava o oceano.

Aquele do seco cabelo jamais soube,
Que o orvalho cansado foi ter com o vidro protetor do oceano
E fez-se gota, 
pois há águas que não se mesclam.
Escorreu conforme o transbordante batia-se, em fuga, contra o vento cortante
e caiu sem sutileza, 
num metal de calçada carcomido por outras águas e velheira.

Naquele momento em que o silêncio se esgueira,
Lembrou-se a gota daquele azul turquesa
E evaporou, sorrindo, a pensar, 
Que o amor pode enferrujar
Mas inoxidável é o amar.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Blossoming

It is like daydreaming, they upheld and smiled
Smashing thoughts among the untaken ones,
Untaken unable to leave the blossoming yard
We shall not perish to stillborn dreams, they shouted 

I heard'em and shouted along 
Inhaling all the dust of years, foregone
We were blossoming like sunflowers, unbound
when winds arrived town.
Bees and nectars flying around
So we could see what the dust really was
Nothing but joy, nothing but you.

No need to daydream when you're already dreaming, so said you;
As your lips touched my forehead
And happiness was our future to blossom, ahead. 

domingo, 27 de junho de 2021

Haveres

Se houvesse de haver um haver
Que a Divindade do tempo apertasse-me a bochecha e sorrisse. 
Clio é morta, resta apenas o bater de asas do canário e o barulho do vento contra suas penas.
Bicou-me a testa a cotovia vadia para dizer-me estas cantarolas 
E suas asas só tornaram a bater quando deparei-me que "nada" é haver.

Haver de, haver para, haver para haver
Mundo, incauto de existir, beija o fastio: cabelos ao vento são só cabelos

Feito o carreto, deixei o pago.
Soprou-me o Minuano ao ouvido
Que as nuvens sejam a casa dos passarinhos 
E que os passarinhos minha casa sejam.


segunda-feira, 22 de março de 2021

Otto

Fazem duas semanas que meu cachorro morreu. Por mais ignóbil que pareça a alguns, viver ao lado de um cão fez-me quem sou e, desta forma, vê-lo reduzido a cinzas que repousam numa caixinha na sala de estar me mergulha em uma miríade de sentimentos intranquilos. Poderia eu começar pela saudade, tão presente no barulho do vazio que Otto deixou; poderia complementar, ainda mais, com o aprender a aprender a ausência. Mas tudo isso já foi pensado e revirado por meus neurônios, que nesse instante não me autorizam a falar destas coisas. O que mais cutuca é na verdade a pequenez, o intangível. Há muito enfrento a inquietude de pensar que isso tudo se resume a nada, que a vida se resume a acidentes sem significado. Em outros tempos, isso já me desesperou e já li que é uma lamúria que pode levar à loucura. Nós precisamos de sentido para criar novos sentidos e ainda que aceitemos o acaso, isto é aceitar um sentido. No meu caso, minha cristandade e teimosia constantemente batem de frente com o senso de incredulidade do todo, resultando na combinação mais fajuta: não pensar sobre. Mas as cinzas do Otto na sala são caminho inescapável a tal pensamento. Se tudo se reduz às cinzas, porque tudo isso? Não me apraz apelar ao Pirronismo, mas até que ponto a felicidade compensa a dor? Tudo isso me parece um beco sem saída, e talvez com um quê de injustiça: abre-se os olhos um dia e se ouve "viva". Sem escolha, sem reembolsos. 

Não posso dizer o que será e porquê será, apenas sei que viver mais que a metade de minha vida com Otto foi um acaso que valeu o acidente. E se vivermos do acidente nos faz acreditar que isto é isto, e isto de fato vale a pena ser zelado, que amemo-lo. 

Por enquanto me parece a melhor opção, da qual os latidos em minha memória parecem querer dizer que devemos cuidar duns aos outros, importar-se sem parar, esperançar-se sem floreios. E por enquanto, parece-me que quando virarmos cinzas, estas só serão cinzas - tudo mais, nada mais. Duvido da consciência das cinzas, tampouco de que elas serão capazes de algo além de simplesmente voar com o vento. Tenha noção do peso do teu acidente e do teu ineditismo: neste caso, eles jamais se repetirão, nem como tragédias. 

terça-feira, 9 de março de 2021

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Poemas Perdidos (pt.2)

''Perca-se'' (31/08/2013)

Madrugando intensas noites
em agonia
em ânsia
fitando de maneira obtusa
a porta.
não espero a razão do teu vir 
só espero que venhas

e quando vens, vens bem
vens com calor
vens com afago
nada mais de temor
- a tua mão em minha cabeça
e minha face descansada em teu busto
o aperto de teu amor que me sufoca
mas que não mata, não machuca, não fere
e depois, teus lábios encostados aos meus
sentindo todo o bater de meus músculos.

meu coração recita 
que
te amo, menina
amo-te
amo tu
escolhe a sentença!
e sim, essa é minha eterna promessa
- a cada segundo passo mais
estático
frenético
fanático
há como ser mais direto?


ainda que eu caminhe perto do abismo
que me perca nos azares dos vícios
que eu seja esmagado pelo ócio de meu choro
eu terei a ti,
minha graça
minha alça
e nunca hei de cair.
                                  
sonho-te contigo ao meu lado
abobo-me a cada sorriso teu
seguro-te a mão
fazes e torna a fazer 
o amor mais amor

assim,
ao infinito eu perpetro:
que eu continue um tolo,-amando-
um pobre antiquado
em que mundo podia ser eu infeliz?
se a ti tenho, 
e ao amor tenho?
aquele que perde-se amando
se encontra
aquele que ama perdido
feliz é perdido

perco-me já perdido
apaixono-me já amando

----------------------------------------------------

''Gaucheando'' (16/07/2013)

Tomou-lhe o cálice d'amargura
Em forma de camafeu
Abraçou do coração as gasturas
Compôs um último soneto
Mixando ao cianeto
e bebeu.

Passou pelo momento da clarividência
Os olhos umedeceram sem ver
passou-lhe o sopro da essência
e todo o campo do querer.
Sentou-se em sua poltrona macia
repousou a cabeça
lembrou-se da estrela que luzia
e do que madre Ju já lhe dizia.

O vento do norte soprou em si
segurando a vida pela última vez
e com o corpo tomado pelo frio
seu sorriso se desfez
simplesmente fechou os olhos e deixou estar
como tinha de ser e sempre será

domingo, 20 de dezembro de 2020

A Mí

Ya me enojé de todo lo que hay de complejo en el mundo,
Y a lo complejo le decreto muerte.
Quiero ahora solamente la brisa fresca de verano.
Quiero el abrazo apretado
Y la sonrisa tonta. 
Quiero los ojos mojados y el amor sin respuestas.
Quiero todo lo que no tiene explicación:
La razón ciega, la fé de los curas. 
Quiero el beso de la pluma en mis mejillas,
La pasión de mi mamá y la canción de cuna de papá.
Pero, sobretodo, lo que más quiero es morirme, morirme de reir
Hasta que el día sea noche,
hasta que la luna mate al sol con su entrañable reproche.